Oposição venezuelana volta às ruas por referendo contra Maduro

Caracas, 6 Jun 2016 (AFP) - A oposição venezuelana exigiu nesta segunda-feira às autoridades eleitorais para acelerar o referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro, durante uma manifestação na zona leste de Caracas, na véspera de uma reunião com autoridades eleitorais para definir o avanço do processo.

Com cartazes e repetindo os lemas "A minha assinatura vale" e "Revogatório Já", 400 seguidores da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que convocou o protesto em frente à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), se concentraram em uma praça do leste de Caracas.

"Assinaremos quantas vezes for necessário. Estamos cansados da escassez. Na minha casa não estamos nos alimentando bem, e o dinheiro não dá para nada", declarou à AFP Morella Briceño, técnica comerciária de 41 anos.

A MUD convocou a mobilização depois que o CNE, ao qual acusa de ser aliado do governo, cancelou na quinta-feira um encontro-chave no qual informaria se cumpriu com o mínimo de 200 mil assinaturas válidas do 1,8 milhão apresentado para ativar o referendo.

A oposição pede que o CNE defina datas e procedimentos para prosseguir com a ratificação das assinaturas com a impressão digital, pois após a ativação da consulta, deve coletar quatro milhões de rubricas para que o referendo seja convocado.

"A validação das assinaturas é um tema crucial porque sem isto não é aberto o caminho do referendo", disse na manifestação o porta-voz da MUD, Jesús Torrealba, após confirmar que a reunião ocorrerá na terça-feira.

A oposição apura o processo, pois se a consulta for feita antes de 2017 - quando se completarão quatro anos do mandato - e Maduro perder, serão convocadas eleições. Se for no ano que vem, seria substituído pelo vice-presidente, nomeado pelo governante.

Efervescência socialA passeata de terça-feira será a terceira convocada pela MUD para pressionar por uma resposta da autoridade eleitoral.

As marchas anteriores pró-referendo foram bloqueadas pela polícia e não foram multitudinárias, em parte por temor à explosão de violência, como ocorreu em 2014, quando 43 pessoas morreram.

Mais ocupados em resolver seus problemas cotidianos, os venezuelanos expressam seu mal-estar com a crise política e econômica nas longas filas que precisam fazer para comprar alimentos subsidiados.

"Eu tive que enfrentar duas filas para conseguir arroz e açúcar. Ao invés de estar brigando, eles têm que encher os supermercados", reclamou Eneuris Cantillo, uma zeladora de 46 anos, em uma fila no bairro Chacao, zona leste de Caracas.

Uma mulher morreu nesta segunda-feira, atingida por vários tiros em uma tentativa de assalto na véspera em San Cristóbal (oeste). Também foram registrados distúrbios em um supermercado na turística Ilha Margarita.

Marco Ponce, da ONG Observatório Venezuelano do Conflito Social, informou à AFP que nos primeiros quatro meses do ano houve 94 saques e 72 tentativas de saques.

A diretora para a América Latina da ONG Anistia Internacional, Erika Guevara, alertou nesta segunda-feira, em Caracas, que na Venezuela há "graves violações" dos direitos humanos pela falta de acesso a alimentos e medicamentos.

O país com as maiores reservas de petróleo do planeta vive uma severa crise, agravada pela queda da commodity - fonte de 96% de suas divisas -, refletida em uma escassez de 80% de produtos básicos, segundo o instituto de pesquisas Datanálisis, bem como uma inflação de 180,9% em 2015, a mais alta do mundo.

Diálogo em meio a divisõesEm plena crise, um grupo de ex-presidentes, encabeçados pelo ex-chefe de governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, tenta aproximar governo e oposição, que já se reuniram em separado com os mediadores na República Dominicana e voltarão a conversar nos próximos dias.

Em aparente sinal de boa vontade, Rodríguez Zapatero foi autorizado a visitar na prisão no sábado o opositor Leopoldo López, que cumpre pena de quase 14 anos, acusado de incitar a violência nos protestos de 2014, que exigiam a saída de Maduro.

"Nenhuma conversa ou diálogo pode estar acima do interesse maior: obter a mudança constitucional este 2016", disse López a Rodríguez Zapatero.

Diante do diálogo, a oposição parece dividida. O ex-candidato presidencial Henrique Capriles afirma que permitirá ao governo "ganhar tempo e melhorar sua imagem", mas o chefe do Parlamento de maioria opositora, Henry Ramos Allup, afirmou que "92% dos venezuelanos querem que haja diálogo".

A oposição adiou nesta segunda-feira uma reunião com os mediadores à espera do informe do CNE.

"O referendo não se negocia em nenhuma mesa porque é um direito constitucional", disse Torrealba, ao destacar que, no entanto, pode ajudar a "tirar os obstáculos que o governo impôs ao referendo".

O analista Luis Vicente León destaca que o chavismo está também dividido porque alguns acreditam que a impopularidade de Maduro "ameaça" a manutenção do poder. Em sua avaliação, por este motivo busca a coesão interna, alertando para uma eventual intervenção americana.

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