Ser gay e latino em Orlando é mais do que nunca uma luta

Orlando, Estados Unidos, 14 Jun 2016 (AFP) - O massacre em uma boate LGBTT no domingo em Orlando desatou uma onda de solidariedade sem precedentes para com a comunidade gay, e também recordou que ainda restam muitos obstáculos a superar para este grupo, principalmente para os hispânicos.

A ajuda não para de chegar. O pessoal do Center, o maior centro de acolhida da comunidade LGBTT (lésbicas, homossexuais, transsexuais e trangêneros) está distribuindo a todo vapor a comida e a bebida que chegam, mas não está dando conta.

O McDonald's enviou um novo carregamento, afirma, emocionada, Dee Richter, mãe de Rob Domenico, um dos administradores do centro.

No domingo, respondendo ao chamado do centro, 200 psiquiatras e psicólogos se apresentaram para atender aos familiares das vítimas ou a qualquer pessoa que precisasse de apoio.

O massacre na discoteca gay Pulse deixou 49 mortos - além do agressor - e mais de 50 feridos.

Uma coleta para arrecadar fundos foi lançada pelos familiares e os feridos através do site gofundme. Já foram arrecadados 257.000 dólares, segundo uma medicação feita até a noite de segunda-feira.

"É incrível ver o número de ligações que recebemos de pessoas que nos perguntam como podem ajudar", explica, entusiasmado, Rob Domenico.

"Para mim, é uma das razões pelas quais fomos um alvo. Mostramos como as duas comunidades (LGBT e heterossexuais) podem funcionar bem juntas", observa.

Justo uma semana antes do atentado, Orlando recepcionou os "Gay Days", um evento festivo pouco conhecido fora da comunidade, mas que atrai cerca de 150.000 pessoas de todas as partes.

O gerente do estabelecimento gay Parliament House, Tim Evanicki, disse ter notado este ano um número significativo de casais heterossexuais durante um show do "Gay Days".

- O peso da religião -Essa mistura e a onda de solidariedade a favor da comunidade LGBTT depois do ataque mostram um avanço. Mas o atentado assinala também que inúmeros obstáculos persistem.

"Se você está nas redes sociais, é repugnante ver como os evangélicos (protestantes radicais) postam mensagens de ódio, dizendo que merecemos o que aconteceu", observa Domenico.

"Tenho a esperança de que tudo isso vá ajudar as pessoas a se dar conta dos danos que causa esse discurso de ódio", explica o pastor Kathy Schmitz, da First Unitarian Church, igreja conhecida por sua abertura para os LGBTT.

Islã ou cristianismo, o peso da religião continua presente entre os gays, principalmente na comunidade hispânica, da qual faz parte a maioria das vítimas do atentado.

"Em nossos países hispânicos, as pessoas são geralmente mais fechadas em relação aos gays", explica Angel Garmendi, gay de origem porto-riquenha que trabalha em um hospital no qual foram atendidos os feridos depois do atentado.

Geralmente entre os hispânicos, "o homem heterossexual é muito machista e o homossexual se sente ainda mais intimidado", explica.

Garmendi perdeu onze amigos no ataque. Em três casos, as famílias souberam ao mesmo tempo da morte e da homossexualidade de seus entes queridos.

"Foi um duplo choque para eles. Eles não aceitam", conta. "Mas esse é o problema: por que não sabiam? Sem dúvida, é a discriminação que existe em nossa famílias".

Para Mark Krueger, militante gay do estado da Geórgia, a religião está em franca oposição aos homossexuais, principalmente no sul dos Estados Unidos.

Para ele, o problema não é o grupo Estado Islâmico. "São os cristãos daqui, que dizem que os gays são pessoas ruins".

Ele conta que um grupo de jovens o agrediu violentamente na saída de um bar de sua cidade, Savannah, sul do estado de Geórgia, em 2000.

Seu carro é regularmente alvo de danos durante a noite e foi salpicado com tinta rosa.

"A única razão pela qual continuo lá é peo clima", afirma, algo decepcionado.

Até mesmo a cidade de Orlando, que parece tão aberta, tem seus problemas.

"Se você pega na mão de outro homem, se mostra afeto na rua, melhor ter cuidado", alerta.

"As coisas evoluíram um pouco, mas apenas um pouco", conclui.

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