Extremistas que escapam da polícia aprenderam a ser discretos

Paris, 15 Jun 2016 (AFP) - Após os recentes atentados nos Estados Unidos e na França, a resposta dada pelos especialistas para a pergunta de como é possível que indivíduos conhecidos, suspeitos e vigiados consigam cometer atos terroristas é que os extremistas agora são muitos e aprenderam a ser precavidos e discretos.

Tanto Larossi Abballa, o assassino de um policial e sua mulher nos arredores de Paris, quanto Omar Seddique Mateen, o autor do massacre de Orlando, não conseguiram se esquivar dos múltiplos sistemas de vigilância e de detecção.

Foram interrogados, e inclusive condenados, no caso de Abballa, por participar de uma rede extremista. Seu comportamento foi investigado, analisado e objeto de informes e averiguações.

Mas por ocuparem os postos mais baixos das listas de suspeitos, preparadas pelos serviços especializados segundo sua periculosidade, um conseguiu matar dois funcionários de polícia e o outro 49 pessoas em uma boate, antes de serem mortos pela polícia.

Para Yves Trotignon, ex-analista de serviço anti-terrorista dos serviços secretos franceses, a estratégia dos grupos extremistas de dissimular suas intenções, suas redes e comunicações não é nova.

"Os investigadores ingleses já descobriram nas investigações sobre os atentados de Londres em 2005 que os terroristas se comunicavam com o Paquistão utilizando métodos dos serviços de inteligência", explicou à AFP.

"Por exemplo, através de 'caixas de correio mortas' (memórias USB escondidas por todo o mundo) ou com rascunhos de e-mails que não eram enviados e, portanto, impossíveis de interceptar", afirma.

"Há alguns anos contam, ainda, com a disseminação do conhecimento em revistas extremistas como Dabiq ou Inspire, com todos as dicas", acrescentou.

"E quando se trata de alguém isolado ou pouco conectado, há pouca coisa para se detectar", concluiu o analista.

"Os terroristas se adaptam", explicava há alguns meses Phillippe Chadrys, sub-diretor responsável pela luta anti-terrorista na Direção Central da Polícia Judicial francesa (DCPJ).

"Entenderam que o telefone e a internet são práticos, mas perigosos. Olhem (para o suposto assassino de Bruxelas, Mehdi) Nemmouche: não tinha celular, nem conta no Facebook", afirmava.

TransbordadosO caso dos irmãos Kouachi, autores do massacre na revista satírica francesa Charlie Hebdo em janeiro de 2015, em Paris, foi estudado por todos os especialistas. Os serviços anti-terroristas os conheciam, os tinham vigiado durante um longo tempo sem que tivessem chamado a atenção até a trágica manhã em que cometeram o ato.

Para passar despercebidos, bastou tomarem medidas simples, como utilizar os celulares de suas companheiras ou evitar falar de seu complô com qualquer pessoa.

"Costumamos encontrar horas de escutas telefônicas em não há nada" interessante, afirmou Yves Trotignon, acrescentando que "se tem, então, que estabelecer uma vigilância física ou abandonar (o caso) para passar a outros suspeitos".

A experiência mostra que para seguir um suspeito 24 horas por dia, necessita-se em torno de 20 investigadores. "É preciso alternar regularmente porque inclusive um idiota pouco formado sabe que essa cara já foi vista em algum lugar", advertiu o ex-agente.

Com mais de 10.000 pessoas na França incluídas no arquivo S (de "segurança de Estado"), milhares delas consideradas como potencialmente perigosas, o cálculo é feito rapidamente. "A vigilância permanente é impossível por simples questões orçamentárias. Nenhum país terá esse tipo de efetivo policial e de inteligência", acrescentou Trotignon.

Um responsável anti-terrorista foi perguntado pela AFP se os serviços estavam sobrecarregados, e respondeu: "Estão".

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