Brexit e a crise existencial vivida pelo Reino Unido

Londres, 22 Jun 2016 (AFP) - A convocação de dois referendos potencialmente devastadores em dois anos, o da independência da Escócia e a votação sobre a permanência ou não na União Europeia (UE), dão uma ideia da crise existencial do Reino Unido, preso entre a nostalgia e o temor do futuro.

Há apenas 60 anos, a Grã-Bretanha reinava como um império que, no auge, reunia 25% da população mundial. Atualmente, corre o risco de ficar sozinha, com um território um pouco maior que o da Islândia, caso decida abandonar a UE no referendo de 23 de junho, a opção conhecida como Brexit.

No debate, a Inglaterra está na linha de frente. Motor econômico, cultural e demográfico do Reino Unido é o mais ameaçado pela explosão. Mas também é a menos pró-europeia das quatro nações constituintes.

"Não vamos nos transformar na 'pequena Inglaterra'", implorou o primeiro-ministro David Cameron, partidário da UE, recorrendo a um termo usado para definir uma mentalidade insular e paroquial.

"Este referendo é um sinal de nossa incapacidade de assumir que não somos mais um império. Aqueles, sobretudo as pessoas mais velhas, que já não se reconhecem em uma sociedade mais diversa são mais receptivos a um discurso que propõe entrar em uma máquina do tempo e começar de novo. Eles dizem, 'Ah!, se pudéssemos largar esta maldita Europa e começar de novo'", explica à AFP Michael Skey, especialista em questões de identidade na Universidade de Loughborough.

- "Nossa revolução francesa" -Por este motivo, afirma Skey, as incessantes referências ao passado e, em particular, à Segunda Guerra Mundial, o último grande momento de glória antes da desintegração do império, "a última vez que a Grã-Bretanha contou de verdade".

Mais de 70 anos depois de vencer os nazistas, a recordação da guerra permanece muito viva no Reino Unido: os caças Spitfire sobrevoam Londres regularmente e Winston Churchill é citado em todos os debates.

Na Eurocopa-2016, os torcedores ingleses cantam a cada partida sobre como "a RAF (Royal Air Force) da Inglaterra abateu" dez bombardeiros nazistas.

Tudo isto é natural, pois a campanha está repleta de referências sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente do campo que defende a ruptura com Bruxelas, cujo líder, Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e biógrafo de Churchill, chegou a comparar a UE a Adolf Hitler.

"Ao contrário de outras nações europeias, saímos da guerra sem nenhum motivo de vergonha. Este país venceu o fascismo e combateu sozinho durante muito tempo. 1940 é fundamental no imaginário britânico. É nossa revolução francesa", destaca Robert Colls, professor de História da Universidade De Monfort de Leicester.

- "Aos encontrões" -"Ao sair da guerra", explica Sunder Katwala, diretor do instituto de debates "British Future", a "Grã-Bretanha estava convencida de que ainda era parte do Top 3 e via o projeto europeu com certo desapego. Quando percebeu o erro pela crise do canal de Suez nos anos 1950, o trem da UE já havia partido".

Quando finalmente embarcou, em 1973, foi "aos encontrões e muito tarde para moldar a UE a seu gosto", destaca Katwala.

"Como têm uma recordação menos traumática da Segunda Guerra Mundial, os britânicos estão menos aferrados à ideia da Europa como projeto moral. Têm a tendência de considerar a UE como um mecanismo puramente econômico e comercial, exatamente como previu o general (Charles) De Gaulle. E se não os beneficia, muitos estão dispostos a sair", afirma o historiador Robert Tombs.

"Além disso, ser uma ilha é parte central do debate", sugere Sunder Katwala.

"Há muito euroceticismo na Europa, mas nenhum país se pergunta seriamente se faz parte da Europa. A Grã-Bretanha sim", conclui.

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