O Brexit seria um 'desastre' para a influência internacional da UE

Bruxelas, 22 Jun 2016 (AFP) - A saída do Reino Unido da União Europeia seria desastrosa para a influência internacional de uma UE já debilitada por uma série de crises, segundo os analistas consultados pela AFP.

O divórcio entre a UE e o Reino Unido, a única potência nuclear europeia membro permaNente do Conselho de Segurança das Nações Unidas junto à França, "pode ter um efeito desastroso para a política externa e de segurança da UE", afirma Rosa Balfour, analista do German Marshall Fund.

E, além disso, em um período complicado, a Europa se viu atingida por uma série de atentados extremistas desde o início de 2015. Ao mesmo tempo, enfrenta a maior crise migratória desde 1945, tem de administrar seu distanciamento da Rússia e quase viu a Grécia abandonar a zona euro no verão (europeu) de 2015.

Neste contexto, o Brexit representaria outro duro golpe porque ainda que não espere nenhuma "mudança brusca" em matéria de política exterior europeia após o referendo britânico do dia 23 de junho, a "perda em termos de imagem" seria real, aponta Janis Emmanouilidis, diretor do European Policy Center (EPC) em Bruxelas.

"Umbigo"Esta marcha mostraria que "os europeus estão centrados em seus inúmeros problemas como a crise migratória ou financeira, que somente olham para o umbigo", afirma Emmanouilidis, para quem esta imagem de "fraqueza" poderia ser explorada pela Rússia de Vladimir Putin ou pelos dirigentes chineses, ávidos para aumentar sua influência.

"Sua imagem se deterioraria ainda mais, se a UE encolhe pela primeira vez em sua história", acrescenta.

Bruxelas conta apenas desde 2010 com um serviço diplomático próprio, à frente do qual se encontra atualmente a italiana Federica Mogherini.

Seus diplomáticos supervisionaram as negociações que desembocaram em um acordo histórico com o Irã sobre seu programa nuclear, se impuseram como mediadores entre a Sérvia e Kosovo, e fazem pare do Quarteto do Oriente Médio.

A UE também desenvolveu ao longo dos anos suas missões militares e civis no exterior, na República Centro-Africana, contra a pirataria na Somália e, mais recentemente, contra os traficantes de pessoas na costa da Líbia.

"Grandes potências como os Estados Unidos, China Índia (...) veriam a UE debilitada política e geopoliticamente no caso de um Brexit. Não o entenderiam. Já não entendem que possa existir um debate sobre o pertencimento do Reino Unido na UE", aponta Vivien Pertusot, especialista em Bruxelas do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

A saída do Reino Unido provocaria também um reajuste estratégico da política diplomática da UE para seus vizinhos do leste e do sul, em detrimento da Ásia e contra os Estados Unidos, assegura.

Em Assuntos Exteriores, os países-membros são os encarregados de adotar as decisões e, diante de uma eventual ausência de Londres, somente Paris teria um "olhar estratégico global" entre o resto dos membros da UE.

Segundo o investigador, França e Alemanha não poderiam compensar conjuntamente esta fraqueza, por conta das "diferenças fundamentais" entre Paris e Berlim sobre a questão da implicação militar.

SançõesLondres sempre se opôs no auge de uma política comum em matéria de defesa e se mostrou, além disso, muito seletivo quando se tratava de dotar de tropas ou equipamentos às missões europeias.

Sua marcha não permitiria, apesar de tudo, avançar neste terreno, já que outros países europeus defendem preciosamente sua soberania, rejeitando tudo o que puder se assemelhar de perto ou longe de um "exército europeu", assinala Balfour.

Para estes países, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que conta com 22 membros que fazem parte da UE, segue sendo a instância privilegiada de cooperação em matéria de defesa.

Em troca, a respeito das sanções internacionais - o verdadeiro exército da diplomacia europeia - o Reino Unido sempre desempenhou um papel unificador, inclusive como um motor, assegura Stefani Weiss, da fundação Bertelsmann.

Londres defendeu com força as importantes sanções econômicas decretadas em 2014 contra a Rússia por seu papel no conflito italiano, quando outras capitais como Roma, Budapeste ou Atenas não escondiam sua falta de entusiamos nelas.

"Existe um risco de que aqueles que não apoiam as sanções com tanto entusiasmo se vejam fortalecidos sem o Reino Unido", adverte.

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