Britânicos decidem seu futuro e o da União Europeia em referendo

Londres, 23 Jun 2016 (AFP) - Os britânicos foram às urnas nesta quinta-feira (23) votar no histórico referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), que pode mudar o país e o continente, além de abalar os mercados financeiros.

Após dois meses de uma campanha dura e tensa, que teve como momento mais dramático o assassinato da deputada trabalhista e pró-UE Jo Cox, 46,5 milhões de eleitores responderam a seguinte pergunta: "O Reino Unido deve permanecer como membro da União Europeia, ou abandonar a União Europeia?".

Apesar da chuva no sul do país, que chegou a provocar inundações em alguns locais, os eleitores se mostraram dispostos a comparecer em bom número às seções eleitorais, após meses de um grande dilema.

"Ficarei muito contente quando tudo isto acabar... Desde que acabe como eu gostaria", disse, enigmática, à AFP a "drag queen" Ben Gidden, de 27 anos, que votou no norte de Londres.

Os locais de votação abriram as portas às 7h (3h de Brasília) e fecharam às 22h (18h de Brasília), ao que se seguiu o início da contagem de votos. Os resultados podem ser conhecidos na madrugada de sexta-feira (hora local).

'Remain' sai na frenteLogo após o fim da votação, uma pesquisa de opinião e um dos líderes da campanha anti-UE no Reino Unido concederam uma vantagem pequena ao campo pró-europeu.

A organização YouGov atribuiu um resultado de 52% dos votos para que o Reino Unido permaneça na UE e 48% contra, de acordo com o comunicado divulgado minutos após o fechamento das seções, às 21h GMT (18h de Brasília).

"Os resultados são apertados, e é cedo demais para dá-los como definitivos. Mas esses resultados, somados às tendências recentes e a históricos precedentes, sugerem uma vitória da permanência" na UE, explicou a entidade em um comunicado.

Depois do fim da votação, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), Nigel Farage, declarou à emissora Sky News que "aparentemente o voto para ficar [na UE] vencerá".

Alternadamente, pesquisas anteriores provocaram euforia e calafrios entre os partidários do "Remain" (permanecer) e os defensores do "Leave" (sair, opção também conhecida como Brexit).

Uma pesquisa realizada pelo instituto Ipsos-Mori para o jornal Evening Standard, publicada mais cedo, mas realizada nas últimas 48 horas de campanha, apontava 52% das intenções de voto para o lado favorável à permanência e 48% para Brexit - precisamente a proporção indicada pela YouGov.

Já outras pesquisas divulgadas nos dias anteriores apontaram a vitória dos eurocéticos, com mais de 10% de indecisos.

No entanto, a Bolsa de Londres e as grandes praças europeias fecharam com fortes altas, motivadas pela convicção de que o Reino Unido permanecerá na UE.

As apostas acabaram sendo um termômetro mais preciso do que as pesquisas nas últimas eleições - gerais e o referendo de independendência -, e essas são claras: 81% de chances para a vitória da permanência.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, que convocou o referendo e joga seu futuro político na consulta, votou no centro de Londres bem cedo e não fez declarações.

A capital britânica amanheceu debaixo de chuva e com problemas nos transportes públicos, enquanto que em outras cidades, como a escocesa Glasgow, o dia estava ensolarado.

A meteorologia pode ter um papel importante no nível de participação, um dado que, segundo todos os indícios, acabará por influenciar o resultado.

"É uma questão de liberdade e de autonomia. Não acredito que conseguiremos isso com a Europa. Não como eu quero", disse à AFP o corretor imobiliário John Thompson, ao explicar seu voto.

"Sou negro, meus pais chegaram como imigrantes ao Reino Unido nos anos 1950. Nasci neste país. Agora dizem que os imigrantes vêm para cá e ficam com os empregos, a mesma coisa que se falava nos anos 1950", disse Paul Robinson, de 55, que trabalha na indústria do cinema.

Abalos sísmicosOs debates acalorados revelaram um profundo racha na população britânica, entre os que se beneficiam da livre-circulação de mercadorias e de capitais e os que consideram que o Reino Unido deve recuperar sua soberania, principalmente por causa da imigração.

Os partidários da permanência afirmam que depois de 40 anos dentro do mercado único europeu, sair seria muito caro e traumático. Os defensores do abandono ao projeto europeu, opção conhecida como Brexit, consideram que essa é uma oportunidade única, que também poderia estabelecer precedentes.

"Há grande possibilidade de que a participação seja comparável à das eleições gerais, que foi 66%. Não será uma participação como a do referendo escocês (85%), mas será razoavelmente alta. Isto significa uma vantagem para os partidários da permanência", disse à AFP o professor de Política Paul Whiteley, da Universidade de Essex.

A saída britânica da UE provocaria abalos sísmicos.

Os mercados europeus, que apoiam a permanência na UE, abriram em leve alta nesta quinta-feira. A libra também operava em alta em relação ao dólar.

O Brexit estimularia as demandas dos separatistas escoceses e dos republicanos da Irlanda do Norte. Também deixaria em território desconhecido milhões de imigrantes europeus no Reino Unido e de britânicos na UE.

Outros países, como a Holanda e até mesmo a França, mostram níveis elevados de euroceticismo nas pesquisas.

Resultados na sexta-feiraO lado vencedor do referendo deve ser conhecido na madrugada de sexta-feira, dificilmente antes das 4h (00h00 de Brasília).

Cada um dos 382 centros de votação espalhados pelo país deve anunciar os resultados à medida que concluir a apuração. Os últimos devem ser revelados às 7h (3h de Brasília), mas a expectativa é que, um pouco antes, os votos de uma das opções já tenham superado 50%.

A primeira grande onda de resultados deve ser divulgada por volta das 2h de sexta-feira em Londres (22h de quinta-feira em Brasília).

O resultado nacional total e definitivo será anunciado na prefeitura de Manchester.

Território desconhecidoNunca um grande país abandonou a UE desde o nascimento do projeto europeu nos anos 1950, quando as nações ainda viviam sob os escombros da Segunda Guerra Mundial, e metade do continente era governado por ditaduras. Atualmente, a UE engloba 28 países democráticos.

O Reino Unido entrou para o bloco em 1973 e, dois anos depois, organizou um referendo para calar os eurocéticos, com vitória da permanência. A votação desta quinta-feira dificilmente encerrará esse debate.

"Estamos em território desconhecido", afirmou o professor Chris Bickerton, da Universidade de Cambridge e autor de "The European Union: A Citizen's Guide".

"A saída seria um golpe muito duro para UE. Há muito tempo a moral não estava tão baixa em Bruxelas", completou.

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