Cinco anos de independência do Sudão do Sul: sangue, lágrimas e fome

Juba, 8 Jul 2016 (AFP) - O Sudão do Sul marca no sábado o quinto aniversário de sua independência, sem o que comemorar: o acordo de paz destinado a virar a página de uma guerra civil devastadora se mantém a duras penas, enquanto a população sofre como nunca com a fome.

Dezenas de milhares de pessoas morreram desde dezembro de 2013 e o início da guerra civil que devastou a nação mais jovem do mundo e sua economia, levando o governo a cancelar, pela primeira vez, as celebrações de independência.

O International Crisis Group (ICG) instou os Estados avalistas do acordo de paz a agir "com urgência" para salvá-lo e, assim, "evitar que o país caia em um conflito em grande escala".

Um confronto quinta-feira à noite na capital Juba, entre ex-rebeldes e soldados leais ao presidente Salva Kiir, fez cinco mortos nas fileiras destes últimos, ilustrando a fragilidade do acordo de paz assinado em 26 de agosto de 2015.

Os combates provocaram uma crise humanitária, forçando dois milhões de pessoas a abandonar suas casas e cerca de cinco milhões, mais de um terço da população a depender de ajuda alimentar de emergência.

"As condições de vida nunca foram tão ruins no Sudão do Sul", resume David Deng, um advogado especialista em Direitos Humanos, listando uma inflação alta, combates ainda em curso, a fome e o nível de desconfiança entre as partes em conflito.

"Se não remediarmos rapidamente a situação, temo que seremos confrontados a um conflito tão amargo quanto a guerra de 22 anos da qual o país saiu recentemente", alertou, referindo-se à guerra nde independência com o Sudão.

Os preços dos bens e serviços explodiram desde a independência em 2011, com uma inflação beirando atualmente os 300% e uma moeda que perdeu 90% do seu valor este ano.

"O fato de que o governo nem sequer tem dinheiro para comemorar o aniversário (de independência) mostra a magnitude das dificuldades econômicas", observa James Alic Garang, um economista do grupo de reflexão Ebony Center com sede em Juba, a capital do sul do Sudão.

'Estamos sofrendo'Depois de uma guerra civil que durou de 1983 a 2005, o atual Sudão do Sul conquistou sua independência de Cartum em 9 de julho de 2011, na sequência de um referendo.

Logo, em dezembro de 2013, mergulhou em uma nova guerra civil. O conflito eclodiu no exército nacional, minado por conflitos políticos e étnicos e alimentados pela rivalidade entre o presidente Salva Kiir e seu vice-presidente Riek Machar.

Em abril, Riek Machar retornou a Juba como parte do acordo de paz assinado em agosto de 2015 e formou com Salva Kiir um governo de unidade nacional. Mas, no terreno, as hostilidades continuam.

Babikr Yawa, de 31 anos e mãe de três filhos, fugiu dos combates no mês passado no distrito de Kajo Keji, perto da fronteira com Uganda. "Estamos sofrendo aqui, não há comida, nem abrigo. O que queremos é que o presidente Salva Kiir e Riek Machar acabem com a guerra", disse ela à AFP.

Em junho, na cidade de Wau, os combates forçaram cerca de 88.000 pessoas a fugir de suas casas, 20.000 delas em busca de refúgio perto da base da ONU.

O acordo de paz é ignorado, denuncia ICG, e "as antigas partes em conflito (...) se prepararam cada vez mais para um conflito em grande escala".

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, recordou recentemente "o orgulho, espírito e esperança" que animaram o país há cinco anos.

Mas depois de sua última visita ao país em fevereiro, Ban só constatou "uma esperança traída (...) por aqueles que colocaram o poder e o lucro acima de seu povo" e denunciou "as violações macivas dos direitos humanos e a corrupção monumental".

As organizações humanitárias enfatizam que a economia arruinada ameaça as chances de o acordo de paz ser aplicado.

"Sem as reformas econômicas, a população continuará a sofrer e o frágil processo de paz estará em perigo", analisa Zlatko Gegic, chefe do Sudão do Sul para a ONG Oxfam.

No entanto, Deng acredita que "seria difícil encontrar um sul-sudanês que lamente a independência, apesar de tudo o que está acontecendo".

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