Atentado com caminhão deixa mais de 80 mortos em Nice

Nice, França, 15 Jul 2016 (AFP) - Ao menos 84 pessoas morreram na noite de quinta-feira (14) em Nice, atropeladas por um homem armado que avançou com seu caminhão contra a multidão em meio à celebração da festa nacional francesa, um atentado terrorista ainda não reivindicado.

O motorista, que durante dois quilômetros avançou semeando caos e morte, foi identificado como Mohamed Laouiaej-Bouhlel, de 31, nascido na cidade tunisiana de Sousse e morador de Nice, capital da Riviera Francesa. Seus documentos foram encontrados no veículo.

Desconhecido da Inteligência francesa, Lahouaiej-Bouhlel era um pai de família em processo de divórcio, descrito pelos vizinhos como violento com a mulher.

Para o promotor da luta antiterrorista, François Molins, esse novo ataque de autoria ainda indeterminada "corresponde" às "convocações de assassinato" lançadas por grupos extremistas.

Segundo ele, Lahouaiej-Bouhlel era "totalmente desconhecido para os serviços de Inteligência (...) e nunca foi fichado, nem mostrou o menor sinal de radicalização".

Era, porém, conhecido da Polícia e da Justiça por seu histórico de "ameaças, violência, roubo e depredações cometidos entre 2010 e 2016".

Pelo menos dez crianças e adolescentes estão entre as vítimas fatais. São 202 feridos e, desses, 52 continuam "entre a vida e a morte", o que pode aumentar o número de óbitos, disse Molins.

Entre os mortos e feridos, há franceses e pelo menos 17 estrangeiros. Já foram identificados três alemães, dois americanos, três tunisianos, três argelinos, um ucraniano, uma suíça, um russo e uma armênia.

O presidente François Hollande decretou três dias de luto nacional, a partir deste sábado (16). Amanhã, está prevista uma segunda reunião do Conselho de Defesa, depois da qual Hollande se reunirá com seu gabinete.

'Gente triturada pelas ruas'No momento do drama, centenas de pessoas acabavam de presenciar no Passeio dos Ingleses, a avenida costeira de Nice, os fogos de artifício por ocasião do aniversário da Queda da Bastilha.

O veículo de 19 toneladas avançou por dois quilômetros, atingindo as pessoas pelo caminho, até o motorista, que tinha uma arma e atirou várias vezes, ser abatido pela polícia.

"Ouvi um 'bum', me virei e vi o caminhão acelerando, e corpos que eram lançados", contou Najate, uma moradora de Nice de 72 anos que presenciou a cena.

"Havia gente triturada pelas ruas. Duas crianças de 8 e 9 anos morreram do nosso lado, na frente dos pais", disse Bachir à AFP, falando de um hospital de Nice.

Um motociclista tentou deter o caminhão abrindo a porta do motorista, mas acabou sendo atropelado, descreveu o jornalista alemão Richard Guthahr. Da varanda de um hotel, ele viu quando tudo aconteceu.

A Polícia indicou que o motorista "mudou de trajetória ao menos uma vez", o que significa que "claramente tentou provocar o maior número de vítimas".

Um indivíduo 'solitário'Horas mais tarde, a praia situada em frente ao Passeio dos Ingleses estava deserta. Dois militares a bordo de uma lancha advertiam aos poucos banhistas que eles deveriam sair da água e ir embora.

Ángela Rojas, uma advogada colombiana de 26 anos, estava tomando sol na rua perto da praia e confessou sua estranha sensação: "Ainda tenho um pouco de medo e tristeza".

"Nunca imaginaríamos que aconteceria aqui; nas grandes cidades como Paris, sim, mas não aqui", lamentou.

No bairro onde o autor do ataque vivia, no leste da cidade, vários vizinhos descreveram-no como "solitário e silencioso".

A Polícia fez buscas em seu apartamento e deteve sua ex-mulher para interrogá-la.

Fontes policiais disseram que o veículo havia sido alugado na região há alguns dias. Dentro dele, foram encontradas armas falsas e uma granada desativada.

Os investigadores ainda tentam estabelecer se existem "eventuais vínculos" do autor da tragédia com grupos "terroristas islâmicos".

"Nunca o vi na mesquita", declarou um segurança em um restaurante perto da sala de orações. Ao seu lado, três muçulmanos praticantes concordaram.

A mesquita de Al-Azhar, a mais alta autoridade do Islã sunita, pediu a união de "esforços para derrotar o terrorismo e limpar o mundo desse mal".

Já os diplomatas do Conselho de Segurança da ONU fizeram um minuto de silêncio nesta sexta-feira pelas vítimas do ataque antes de uma reunião convocada para discutir a situação no Iraque.

Caráter terrorista"É, sem dúvida, um terrorista ligado ao islamismo radical de uma maneira, ou de outra (...). Sim, foi um ato terrorista, e nós vamos buscar cúmplices", declarou o primeiro-ministro Manuel Valls, ao canal de televisão France 2.

"Não acabamos com o terrorismo", alertou Hollande, que conversou por telefone com a chanceler alemã, Angela Merkel, com a nova premiê britânica, Theresa May, e com o presidente americano, Barack Obama.

O estado de emergência, que deveria terminar em 15 dias, foi prolongado por três meses. Esse regime, decretado após os atentados de 13 de novembro, facilita as operações policiais e a prisão domiciliar de suspeitos.

Hollande também anunciou o recurso a milhares de cidadãos reservistas para apoiar policiais e gendarmes, esgotados por meses de vigilância intensiva desde 2015.

O atentado de quinta-feira é um dos mais sangrentos cometidos na Europa nos últimos anos.

Em 13 de novembro passado, vários suicidas do EI mataram 130 pessoas em Paris, 90 delas na casa de shows Bataclan.

Antes desses atentados, a França já havia sido atingida pela violência terrorista nos ataques de janeiro de 2015 contra a revista satírica Charlie Hebdo e um supermercado kosher, que deixaram 17 mortos e que foram seguidos por vários outros ataques e tentativas de atentado.

Longe da unidade reinante entre a classe política após os atentados de janeiro de 2015, a oposição conservadora não demorou a criticar o governo socialista de Hollande, a menos de um ano das eleições presidenciais na França.

"Se todas as medidas tivessem sido tomadas, o drama não teria ocorrido", afirmou o ex-primeiro-ministro Alain Juppé.

Hollande respondeu pedindo unidade e coesão, diante de um combate que se anuncia "muito longo".

"Temos de nos unir, ser solidários, dar prova de sangue-frio coletivamente", afirmou Valls.

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