Rinocerontes indianos raros enfrentam ameaça de caçadores ilegais

Kaziranga, Índia, 15 Jul 2016 (AFP) - Cai a noite sobre o parque nacional indiano de Kaziranga, quando guardas florestais armados saem em busca de caçadores que ameaçam a maior concentração mundial de rinocerontes-indianos, os Rhinocerusunicornis.

Equipados com pequenas tochas e fuzis velhos, estes homens estão na linha de frente da luta contra as redes internacionais de traficantes, que matam esses raros animais durante a noite para vender os chifres a preço de ouro.

Há cerca de dez anos, a Índia quase cantou vitória sobre a caça ilegal em Kaziranga, uma zona florestal protegida de 430 km2 no estado de Assam (nordeste), onde vivem 2.500 rinocerontes.

A caça se acelerou nos últimos anos devido ao alto preço dos chifres na China e no Vietnã. Neste ano morreram cerca de dez exemplares - mais que o dobro que no mesmo período de 2006.

"As redes de caçadores ilegais estão mais organizadas, são mais fortes e mais eficazes", explica Amit Sharma, coordenador especializado em preservação de rinocerontes para a ONG World Wildlife Fund (WWF) Índia.

Um chifre pode ser vendido por 100.000 dólares o quilo. "Seu valor disparou, e por isso as pessoas estão dispostas a arriscar a vida", diz Sharma.

Os guardas se queixam da falta de meios para combater caçadores com óculos de visão noturna e fuzis Kalashnikov.

Muitos grupos guerrilheiros do nordeste da Índia estão implicados neste tráfico. O chifre transita pelo estado vizinho de Nagaland e pela Birmânia, a caminho da China.

Em Assam, o rinoceronte é motivo de orgulho, além de um chamariz para turistas. Por isso a morte em abril de um exemplar no parque nacional durante a visita do príncipe William, do Reino Unido, e sua esposa, Kate Middleton, causou estupor.

"Há alguns anos havia rinocerontes por todos os lados", afirma Damayanti Chhetri, habitante da zona.

Os guardas estimam que os traficantes não podem atuar sem apoio local e desconfiam que eles são avisados por alguns habitantes sobre as rondas de vigilância.

"Os habitantes conhecem cada canto do parque. Há muito dinheiro em jogo. É um ofício arriscado, mas ainda assim o fazem", afirma uma autoridade florestal.

DNA de rinoceronteOs guardas florestais são autorizados a atirar contra suspeitos em caso de necessidade. Em uma década, morreram dezenas de pessoas.

A medida é polêmica, mas seus defensores afirmam que não se pode entrar no parque sem permissão.

"Se vemos alguém, podemos abrir fogo sem aviso prévio. Pressupomos que é um caçador ilegal", afirma um guarda que matou um suspeito.

Há dois anos, Dipen Sawra, um pai de família de 35 anos, não voltou para casa após um guarda florestal ter lhe oferecido cortar lenha em troca de dinheiro. Mais tarde, apareceu morto com uma ferida de bala na cabeça.

"Eram grandes amigos, ele (o guarda) costumava vir em casa beber chá", conta à AFP o pai da vítima, Vikari Sawra. A família não recebeu o resultado da autópsia e quer saber o que aconteceu.

"Sou velho, já não posso trabalhar e não tenho meios para pagar advogados. Perdi o que tinha de mais valioso", diz Vikari Sawra.

A nova responsável pelas Florestas de Assam, Pramila Rani Brahma, afirma que a pobreza alimenta o contrabando, e ordenou uma investigação sobre as acusações de cumplicidade entre os guardas florestais com os caçadores ilegais.

Segundo o responsável da WWF, as autoridades do parque não são cúmplices dos traficantes, mas trabalham sob pressão, o que pode levá-los a encobrir incidentes.

As condenações escasseiam e os suspeitos costumam acabar em liberdade sob fiança.

Para remediar a situação, a WWF Índia trabalha com as autoridades na criação de uma base de DNA de rinocerontes, um sistema já utilizado na África do Sul.

"Cada rinoceronte tem uma impressão digital em forma de DNA. Em caso de julgamento, vai ser muito fácil conseguir uma condenação", afirma Sharma, embora para ele a prioridade seja equipar os guardas.

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