A angústia interminável de familiares nos hospitais de Nice

Nice, França, 16 Jul 2016 (AFP) - Com a Promenade des Anglais convertida em local de homenagem às vítimas, o drama se transferiu para os hospitais da cidade francesa de Nice, onde dezenas de pessoas aguardam notícias de parentes, como Tahar Mejri, que, neste sábado, soube que perdeu o filho, de 4 anos.

No hospital pediátrico de Lenval, deram entrada 30 crianças na noite da última quinta-feira, a menor com apenas 6 meses. Três médicos e três psicólogos se ocupam das mais de 50 famílias que aguardam por notícias.

Entre estas pessoas está Mejri, 39, cujo filho Kyllian está desaparecido. "Liguei para todos os lugares: delegacias, hospitais, recorri ao Facebook, mas não encontro meu filho. Faz quase 48 horas que o procuro. Minha mulher está morta. E meu filho, onde está?"

Na noite de quinta-feira, a família havia se dividido. Ele estava com amigos perto da parte antiga da cidade, enquanto a mulher e o filho haviam ido à Promenade des Anglais, onde Mohamed Lahouaiej-Bouhlel atropelou dezenas de pessoas com um caminhão.

"Estou sem bateria, não se preocupe. Acabei de encontrar as amigas, as crianças aguardam os fogos", diz a última mensagem que Mejri recebeu da mulher.

- 202 feridos, 53 emergências -Chamava-se Olfa Khalfallah, de nacionalidade tunisiana e nascida em 1985. Junto a seu corpo, estava o patinete do pequeno.

Horas após visitar o hospital Lenval, Mejri explode de dor na saída do hospital Pasteur, onde várias crianças também foram internadas. Os médicos haviam acabado de informá-lo sobre a morte do filho, após uma análise de amostras de DNA.

"Os dois! Os dois!", exclama, com os braços erguidos, enquanto familiares tentam tranquilizá-lo.

Tampouco conseguem acalmá-lo os voluntários do grupo de psicólogos instalado desde a madrugada de sexta-feira no hospital. Ele caminha como pode até o carro, em que havia colocado uma foto de Kyllian na janela, em busca de informações.

Os gritos de raiva de Mejri acabaram com a calma de uma manhã silenciosa, apesar de movimentada, no hospital Pasteur, menos de dois dias depois do caos causado pela entrada de 202 feridos, entre eles 53 atendimentos de emergência.

De um lado, jornalistas de todo o mundo buscam depoimentos, e, a 50 metros, parentes de vítimas e outros afetados pelo estresse causado pelo atentado procuram ajuda psicológica.

De repente, deixa a área de emergências um homem com dificuldade para caminhar e o rosto tomado por ferimentos. Ele consegue se sentar em um ponto de ônibus.

"Muito mal, não tenho palavras", balbucia, entre lágrimas, antes de um grupo de enfermeiros se aproximar e o ajudar a retornar ao hospital.

- 'Coisas que não sei como explicar' -À área dos psicólogos se dirige Inès, uma estudante de 21 anos que vive em Nice e vivenciou o atentado de perto.

"Tentei ajudar as pessoas, mas logo comecei a correr. Deixei as pessoas ali, foi difícil, vi coisas que não sei como explicar", lembra, trêmula.

"Não posso continuar minha vida como se nada tivesse acontecido. Tenho que estar aqui e falar, antes de proseguir. No momento, não consigo olhar para o celular, espero que meus amigos estejam bem", acrescenta, com a voz embargada.

O hospital Pasteur também recebe muitos doadores de sangue desde a madrugada de sexta-feira.

"Venham ajudar nossos irmãos inocentes, doar sangue, apoiar as famílias, doar alimentos e fraldas para os bebês. Todos juntos contra os loucos", dizem cartazes escritos a mão nos arredores do hospital.

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