Polícia investiga possíveis cúmplices de autor do atentado de Nice

Nice, França, 17 Jul 2016 (AFP) - As autoridades francesas detiveram neste domingo várias pessoas relacionadas com o massacre de Nice (sudeste da França), reivindicado pelo grupo Estado Islâmico, enquanto os investigadores revelaram que o ataque foi minuciosamente planejado por seu autor, que enviou mensagens por SMS a alguns de seus possíveis cúmplices.

O balanço, que se mantém em 84 mortos, entre os quais dez menores, pode aumentar. No total, 85 pessoas permanecem hospitalizadas.

Fontes próximas às investigações revelaram que pouco antes do atentado, o motorista do caminhão, o tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, enviou um SMS "gabando-se de ter obtido uma pistola 7.65 e evocando o fornecimento de outras armas", de acordo com fontes próximas ao caso.

Os investigadores se perguntam se as armas que ele cita seria destinadas a si próprio ou a outras pessoas, e mais de 200 agentes estão mobilizados para "identificar os destinatários" das mensagens.

O motorista de entregas, de 31 anos, "também se fotografou ao volante entre 11 e 14 de julho" antes de enviar a imagem por SMS, segundo as fontes.

De acordo com uma fonte próxima aos investigadores franceses, o tunisino foi ao local do atentado com seu caminhão em 12 e 13 de julho, antes da carnificina cometida no feriado nacional de 14 de julho.

A ex-mulher do assassino, detida desde a sexta-feira para interrogatório, foi liberada neste domingo.

Sete pessoas permanecem detidas, inclusive um albanês de 38 anos, suspeito de ter fornecido ao motorista a arma que usou no ataque.

De acordo com o advogado da mulher, ela foi vítima de violência e assédio de parte de seu marido.

Segundo Jean-Yves Garino, que se reuniu com a mulher, mãe de três filhos, informou que ela tinha considerado ir com toda a família ver os fogos de artifício em 14 de julho, em Nice, mas acabou mudando de ideia.

"Ela passou dois dias sob custódia. Estava isolada, não sabe o que aconteceu no exterior. Esta senhora está arruinada diante dos atos cometidos por seu marido, pai de seus três filhos", afirmou à AFP.

"Ela sofria agressões repetidas de seu marido, violências físicas e assédio. O divórsio estava em curso. Ele também bateu na mãe da minha cliente. Queixas foram apresentadas", prosseguiu o advogado.

Segundo ele, a mulher não testemunhou a eventual radicalização de seu marido. "Ela não vivia mais com ele, ela simplesmente passava por ele quando ele ia ver as crianças em um jardim público".

RadicalizaçãoVárias testemunhas interrogadas, entre as centenas já ouvidas pelas autoridades, também mencionaram pela primeira vez a religiosidade do tunisiano, até então desconhecido dos serviços de inteligência franceses.

Seu pai havia indicado que ele "não tinha ligação alguma com a religião" e, de acordo com os primeiros relatos de vizinhos, o assassino, apresentado pelo EI em sua reivindicação como "um soldado do Estado Islâmico", parecia ter um perfil de desequilibrado, dado a "crises" com sua família.

Segundo o testemunho de um dos homens sob custódia, informado à AFP por seu advogado Jean-Pascal Padovani, o assassino era alguém "bem integrado em Nice, que conhecia muitas pessoas". Os clientes de uma academia de ginástica frequentada pelo autor do ataque evocaram, por sua vez, um homem "pretensioso" e que costumava "flertar" com as mulheres.

"Ele parece ter se radicalizado muito rapidamente", disse no sábado o ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, depois de uma reunião de crise do governo.

Ao dirigir o seu caminhão contra uma multidão reunida na Promenade des Anglais para a queima de fogos de artifício em comemoração a Queda da Bastilha, o assassino atropelou 200 pessoas ao longo de dois quilômetros.

Entre os mortos estão dez crianças e adolescentes e pelo menos 17 estrangeiros. Neste domingo, 18 pessoas seguiam em estado crítico, incluindo uma criança. No total, 85 pessoas ainda estão hospitalizadas.

A comunidade russa de Nice pagou um preço muito alto, de acordo com os seus representantes, com "pelo menos uma dúzia de pessoas" mortas ou feridas.

Neste domingo, o papa Francisco declarou que está "perto de cada família e de toda a nação francesa de luto". "Em nossos corações está viva a dor pela tragédia que, na noite de quinta-feira, em Nice, destruiu muitas vidas inocentes, incluindo a de muitas crianças", acrescentou Francisco a seus fiéis na Praça São Pedro.

"Estamos em guerra"Oito meses após decretar o estado de emergência na França e adotar novas leis anti-terrorismo na sequência dos ataques de 13 de novembro em Paris, o governo socialista apelou no sábado a "todos os patriotas franceses" para que apoiem as forças de segurança.

Este apelo do ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, para que os franceses se alistem aos reservistas da polícia e da guarda civil é a única proposta nova lançada pelo governo, encurralado por todos os lados para reagir três dias após o massacre.

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, exigiu a demissão de Cazeneuve e denunciou "carências gravíssimas do Estado em seu dever de proteger" os franceses.

O ex-premiê Alain Juppé, candidato às primárias de direita para as presidenciais de 2017, voltou a criticar o governo, pedindo velocidade na luta contra o terrorismo.

Em um telejornal de grande audiência da emissora TF1, o presidente do partido Os Republicanos (direita), ex-chefe de Estado Nicolas Sarkozy, julgou, por sua vez, que "tudo o que deveria ter sido feito depois de 18 meses não foi feito".

"Nós estamos em guerra, uma guerra total (...) Portanto, eu vou empregar palavras fortes: serão eles ou nós", afirmou o ex-presidente.

Em resposta, o premiê, Manuel Valls, afirmou: "Questionar o Estado de direito, questionar nossos valores, esta será a maior renúncia.

Segundo o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, o efetivo da operação militar Sentinelle, mantido em 10.000 soldados contra 7.000 inicialmente previsto após o final da Eurocopa-2016, permanecerá neste nível "até o fim do verão".

Em Nice, nas muitas mensagens depositadas no Passeio dos Ingleses, a avenida à beira-mar desta cidade turística da Riviera Francesa, percebia-se o cansaço dos franceses diante da série de trágicos atentados.

"Vamos deter o massacre!", "Fartos de matanças em nossas ruas!", "Chega de discursos!" diziam alguns cartazes.

No domingo, houve missas e congregações em homenagem às vitimas em várias cidades da França.

Em Paris, mais de mil fiéis assistiram a uma missa na catedral de Notre-Dame em homenagem às vítimas de Nice.

Mergulhado em três dias de luto nacional, o país observará nesta segunda-feira às 12h00 locais (07h00 de Brasília) um minuto de silêncio. Depois deste momento de recolhimento, o acesso ao Passeio dos Ingleses, cenário do ataque, será totalmente reaberto.

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