Análise: Estado Islâmico é autor ou inspiração nos ataques terroristas recentes?

Em Bagdá

  • Valery Hache/ AFP

    Mulher observa memorial improvisado em homenagem às vítimas do ataque com caminhão em Nice, na França

    Mulher observa memorial improvisado em homenagem às vítimas do ataque com caminhão em Nice, na França

O grupo Estado Islâmico (EI) reivindicou vários ataques recentes em países ocidentais, que pode ter inspirado, mas é pouco provável que tenha planejado estes atos a partir do Iraque e da Síria, com a intenção de semear medo e ocultar seu retrocesso em terra, dizem especialistas ouvidos pela agência de notícias AFP.

O massacre em Nice ou o ataque com um machado contra os passageiros de um trem na Alemanha "ajudam a criar um clima de medo e reforçam a ideia de que o EI está na ofensiva, apesar de suas perdas de território" no Iraque e na Síria, disse Aymenn al Tamimi, especialista em jihadismo do centro de estudos americano Middle East Forum.

"Mas a forma pela qual o EI reivindicou estes ataques sugere uma ausência de envolvimento operacional direto", acrescentou.

A agência Amaq, um de seus órgãos de propaganda, disse que o ataque na Alemanha havia sido lançado "em resposta ao seus apelos a atingir os países da coalizão" que luta contra a organização no Iraque e na Síria.

Esta linguagem é quase a mesma que usou para reivindicar o massacre em Nice cometido por um tunisiano de 31 anos que avançou com seu caminhão contra uma multidão durante a celebração da festa nacional da França.

O grupo se refere aos autores como seus "combatentes", sem especificar qual é a natureza dos vínculos que os unem à organização extremista.

Em 2014, o porta-voz oficial do grupo, Abu Mohamed Al Adnani, pediu que seus simpatizantes utilizem qualquer meio disponível, como veículos, para matar infiéis americanos e europeus.

Como parte de sua estratégia, o grupo inunda as redes sociais com textos, fotos e vídeos nos quais elogia este tipo de ações violentas.

 

"Imprevisíveis"

Para o grupo, esta estratégia oferece muitos benefícios a um baixo custo, já que estes ataques não precisam de um longo planejamento e sua eficácia é máxima.

Por sua vez, para as autoridades, "são mais difíceis de evitar, já que são mais imprevisíveis", disse Tamimi.

O investigador Will McCants, especialista em movimentos jihadistas do centro de estudos Brookings Institution, com sede em Washington, afirmou que os ataques inspirados no grupo são muito difíceis de parar devido à falta de vínculos operacionais com a organização.

"Além disso, criam mais paranoia que os ataques cometidos diretamente", já que "o atacante pode ser qualquer um".

O EI teve que se adaptar às dificuldades que encontra em terra no Iraque e na Síria, onde seus comandantes de alto escalão precisam se esconder e agir da maneira mais discreta possível para evitar ser detectados e ser alvos dos bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, que em dois anos lançou cerca de 14.000 bombardeios na zona.

Segundo Washington, o EI perdeu 50% de seu território no Iraque e entre 20% e 30% das zonas que controlava na Síria em relação a 2014.

No entanto, o grupo "não perdeu a capacidade de realizar ataques oportunistas", disse Michael Weiss, do centro Atlantic Council.

Neste contexto, a propaganda cria o contexto ideal para incitar ataques de indivíduos com problemas psicológicos ou propensos a ter impulsos violentos, sem importar se tiveram durante muito tempo vínculos com o extremismo islâmico.

O procurador de Paris, François Molins, descreveu Mohamed Lahouaiej Boulhel como "um indivíduo não religioso, que comia porco, bebia álcool, consumia drogas e mantinha uma vida sexual desenfreada", mas que "se interessou recentemente pelo jihadismo radical".

Molins explicou que a propaganda do grupo nas redes sociais tem sua eficácia no fato de que tem como alvo pessoas perturbadas ou indivíduos fascinados com a violência extrema.

Na Alemanha, o ministro do Interior, Thomas de Maiziere, disse que o jovem de 17 anos que cometeu o atentado pode se tratar de um caso no qual o desequilíbrio mental e o terrorismo se misturaram.

No caso do ataque cometido por Omar Mateen, que matou 49 pessoas em uma boate gay na Flórida antes de ser abatido, ele respondia a um perfil de um homem violento, homofóbico, radical, mas alguns testemunhos indicam que utilizava aplicativos para encontros com homossexuais e que também frequentava a boate onde lançou o massacre.

Homem ataca passageiros em trem na Alemanha

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