Atentado de Nice foi preparado durante meses; 5 suspeitos são denunciados

Paris, 21 Jul 2016 (AFP) - Um ato "amadurecido" por vários meses, com "cumplicidades" e "apoios": a investigação do massacre de 14 de julho, em Nice, revela um preparo prolongado com a cumplicidade de cinco suspeitos, denunciados e detidos na noite de quinta-feira por juízes antiterroristas.

Tratam-se de quatro homens, com idades entre 21 e 40 anos, e uma mulher de 42 anos.

Chokri C., Mohamed Oualid W. e Ramzi A. foram denunciados por "cumplicidade em assassinatos em quadrilha organizada em relação com uma ação terrorista", informou o MP parisiense.

Ramzi A. também foi denunciado por "infrações na legislação sobre armas em relação com uma ação terrorista", assim como o casal de albaneses Artan H. e Enkeledja Z. Suspeita-se que estes três últimos tenham participado de alguma forma no fornecimento da pistola com a qual o assassino, Mohamed Lahouaiej Bouhlel, atirou nos policiais antes de ser morto.

"Avanços notáveis" nas investigações permitiram "confirmar o carácter premeditado da passagem à ação" do caminhoneiro e entregador tunisiano de 31 anos, "mas também se beneficiou de apoios no preparo e execução de seu ato criminoso", disse anteriormente o procurador de Paris, François Molins, em coletiva de imprensa.

O tunisiano Bohlel dirigiu um caminhão que lançou sobre centenas de pessoas no Passeio dos Ingleses em 14 de julho, festa nacional francesa, deixando 84 mortos e 331 feridos, em um ataque reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI).

O prognóstico de quinze dos feridos permanece "comprometido", afirmou o procurador de Paris nesta quinta-feira.

Os cinco suspeitos denunciados "não estavam fichados nos serviços de informação", disse Molins.

Nenhum deles era conhecido pelos serviços de inteligência, e apenas Ramzi A., que nasceu em Nice, tinha ficha criminal por roubo e envolvimento com drogas.

Este suspeito levou a polícia a encontrar uma Kalashnikov e uma bolsa de munição, mas sua utilização ainda não está clara.

Mais de 400 investigadores estão envolvidos na investigação deste atentado, o terceiro na França em 18 meses.

Muitas das pessoas interrogadas pelos investigadores descreveram o motorista do caminhão como alguém distante da religião muçulmana, pois bebia, comida carne de porco e era sexualmente muito ativo.

Contudo, os elementos iniciais da investigação revelaram que sua radicalização foi recente.

Em 26 de maio do ano passado, ele tirou uma foto de um artigo sobre a droga Captagon, uma anfetamina usada por extremistas na Síria.

Em julho de 2015, ele tirou fotos da multidão durante os fogos de artifício do Dia da Bastilha, assim como outra de pessoas vendo um show no Passeio dos Ingleses, três dias antes.

Em 4 de abril passado, Chokri C. enviou a Bouhlel uma mensagem pelo Facebook que dizia: "Carregue o caminhão com 2 mil toneladas de ferro... Solte os freios, meu amigo, e vou assistir".

Molins informou ainda que dois Mohameds se contactaram 1.278 vezes entre julho de 2015 e julho de 2016.

Os investigadores acharam uma mensagem de texto no celular de Bouhlel enviada por Mohamed Oualid em janeiro de janeiro de 2015, dias depois do ataque contra a redação da revista Charlie Hebdo, que fez circular a hashtag de apoio às vítimas "Eu sou Charlie".

Essa mensagem dizia: "Eu não sou Charlie ... Estou feliz que tenham trazido soldados de Alá para terminar o trabalho".

Análises de seu computador também mostra pesquisas de imagens que ilustram seu fascínio pela violência e movimentos extremistas.

Segurança e transparênciaPassada uma semana após o atentado de Nice, segue a polêmica sobre a segurança na França, mas o presidente François Hollande prometeu que haverá "verdade e transparência" sobre o dispositivo mobilizado no dia do atentado.

"Quando há um drama, uma tragédia, por um ataque com muitos mortos, vítimas e feridos, há dor e uma pena compartilhada e necessariamente surgem perguntas", disse Hollande, pedindo aos franceses para "mostrar coesão" neste momento difícil.

O presidente francês deu estas declarações em uma coletiva de imprensa em Dublin, para onde viajou para se reunir com a primeira-ministra irlandesa, Enda Kenny.

Nesta quinta-feira, o jornal progressista Libération avivou novamente a polêmica em torno do dispositivo policial mobilizado na noite do ocorrido e as acusações de "mentira" e "falsidade" chegam de toda parte.

O jornal afirma que a entrada da zona de pedestres do Passeio dos Ingleses de Nice, para onde 30.000 pessoas se dirigiram para acompanhar os fogos de artifício, estava protegida apenas por um carro da polícia municipal e que a polícia nacional estava praticamente ausente nas imediações.

PremeditaçãoO ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, acusou o jornal de "falsidade", mas anunciou uma investigação administrativa da polícia para estabelecer a realidade deste dispositivo e por fim à polêmica.

O grupo Estado Islâmico (EI), que já tinha reivindicado os atentados que deixaram 130 mortos em 13 de novembro, em Paris, ameaçou intensificar seus ataques à França em um novo vídeo, em que aparecem pessoas saudando em francês o assassino de Nice.

O autor do ataque, um jovem tunisiano morador de Nice, é descrito como um homem violento que vivia afastado dos preceitos religiosos.

Como Molins explicou no início da semana, ele também manifestava um interesse recente, mas certeiro nos movimentos extremistas.

Ao que tudo indica, Bouhlel parece ter planejado o ataque vários meses antes, segundo o procurador, informando sobre imagens reveladoras no celular do atacante, algumas das quais tiradas há mais de um ano.

Entre elas está uma foto de um show no Passeio dos Ingleses e dos fofos de artifício de 2015 no mesmo local, assim como outra foto de 25 de maio de 2015 de um artigo sobre o "captagon", uma droga famosa, usada pelos extremistas autores de atentados terroristas.

Os contatos entre Lahouiaej Bouhlel e os cinco suspeitos "corroboram ainda mais esta premeditação", acrescentou o procurador.

Em um ambiente de tensão, o Parlamento aprovou nesta quinta-feira a extensão do estado de emergência, instaurado após os atentados de 13 de novembro, em Paris, por um período de seis meses.

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