'Cemitério dos traidores' para os golpistas da Turquia

Istambul, 29 Jul 2016 (AFP) - "Cemitério dos traidores" anuncia um letreiro cravado nos arredores de Istambul sobre um pequeno monte de terra destinado aos soldados rebeldes mortos na tentativa de golpe de 15 de julho.

É uma terra rochosa exposta ao escaldante sol de julho, sem uma pedaço de sombra sequer.

A poucos metros de distância, alguns trabalhadores construíram um abrigo para animais abandonados.

As autoridades turcas decidiram enterrar nesse terreno os 24 amotinados mortos no fracassado golpe contra o governo e o presidente Recep Tayyip Erdogan, que terminou com 270 mortos.

No momento há apenas um soldado sepultado: o capitão Mehmet Karabekir, que, aparentemente, matou uma pessoa durante o golpe e sua família se recusou a arcar com o seu funeral. Perto de seu túmulo, três sepulturas foram escavadas.

Nem oração, nem paz"O corpo foi levado por uma ambulância. Um punhado de pessoas o enterraram e nada mais", disse uma testemunha à AFP.

O cemitério não é aberto ao público e os jornalistas só podem visitar escoltados por um agente de segurança.

A ideia de construir um cemitério especial para os "traidores" partiu da prefeitura, segundo o prefeito de Istambul, Kadir Topbas.

"Aqueles que traíram a nação não devem jamais descansar em paz, nem mesmo em seu túmulo", disse ele.

A direção dos assuntos religiosos, Diyanet, informou que não permitiria cerimônias religiosas nem orações para os soldados rebeldes mortos.

"As orações são recitadas para a redenção dos mortos, mas as pessoas que cometem estas ações pisaram nas leis de um país. Elas não merecem orações de redenção por seus irmãos muçulmanos", declarou o organismo.

O Diyanet abriu exceção aos soldados e membros das forças de segurança forçados por seus superiores a participar na tentativa de derrubar o regime.

"Merecem e muito serem chamados de traidores", opina um taxista, Yasar.

'Decisão apressada'Nem todos concordam com ele. Alguns pensam que qualquer ser humano merece um funeral.

A decisão de construir este cemitério "foi apressada, num momento quente", afirma Necip Taylan, professor de teologia aposentado que ensinou teologia na Faculdade de Teologia da Universidade de Marmara e que foi deputado do partido AKP no poder.

"A sociedade está magoada com o que aconteceu, mas sempre existiram traidores. Não há nada de novo, eu não acho que foi uma boa ideia criar este cemitério", disse à AFP.

O cemitério também atraiu críticas nas redes sociais. Um internauta perguntou no Twitter se os responsáveis pelos três golpes de Estado na Turquia desde 1960 estão enterrados em locais isolados.

No ano passado, o general Kenan Evren, líder do golpe militar de 1980, morreu e foi enterrado em um cemitério normal.

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