Corpos, excrementos e lixo: bem-vindos às competições de vela no Rio

Rio de Janeiro, 1 Ago 2016 (AFP) - Quando os velejadores olímpicos começarem a competir no Rio, as câmeras mostrarão uma paisagem espetacular das montanhas e águas tropicais: por sorte, os telespectadores não sentirão o cheiro.

Mais de nove milhões de pessoas vivem no Rio e nas cidades ao redor da Baía de Guanabara. No melhor dos casos, somente a metade do esgoto produzido é tratado antes de ser despejado no coração aquático da cidade.

Incrivelmente, o fato de competir numa privada gigantesca -que segundo investigadores brasileiros contém superbactérias resistentes a antibióticos- não é a preocupação principal dos atletas.

São os objetos que flutuam, capazes de desacelerar ou até danificar os barcos e os sonhos da conquista de medalhas, que atormentam os atletas, como a brasileira Kahena Kunze e sua dupla de classe 49er Martine Grael.

A coleta de lixo na área metropolitana do Rio não é melhor que o tratamento do esgoto e a baía está cheia de sacolas e garrafas de plástico, móveis velhos e animais mortos.

O jornal The New York Times publicou nesta semana uma foto de um cadáver humano boiando na baía. Um corpo esquartejado apareceu em junho na praia de Copacabana.

"É vergonhoso", lamenta Kunze à AFP.

- Medidas de emergência -Como parte da proposta de candidatura para sediar os Jogos Olímpicos, o Rio apresentou em 2009 um plano para tratar 80% do esgoto despejado na baía, uma tarefa que requer melhorias enormes e caríssimas de infraestrutura.

Como não cumpriu a promessa, a cidade adotou medidas emergenciais.

Uma frota de 12 barcos coletores de lixo, chamados de "ecobarcos", passaram meses patrulhando a baía, pescando da água uma média de 45 toneladas de lixo por mês -uma tonelada e meia por dia-, de acordo com as autoridades.

Quando começarem as competições, os coletores de lixo trabalharão a todo vapor.

As primeiras linhas de defesa, contudo, são as chamadas "ecobarreiras", redes instaladas através de 17 rios que desaguam na baía de Guanabara, utilizados por milhões de pessoas como lixões e privadas a céu aberto.

Em uma ecobarreira no rio Meriti, no bairro de Duque de Caxias, na Zona Norte do Rio, a AFP observou uma maré de plástico, pneus, brinquedos infantis e aparelhos eletrodomésticos, incluindo uma geladeira e um micro-ondas.

A cada dia, os coletores saem em pequenos barcos de alumínio, levantando alguns pedaços e empurrando o resto em direção às margens, onde uma escavadeira é utilizada para coletar os restos. É um trabalho sujo e potencialmente perigoso, realizado em meio ao nauseante odor de esgoto, proveniente de uma favela próxima.

"Já encontramos cachorros mortos, ratos, gatos, de tudo", lembrou um dos trabalhadores, que informou receber 1400 reais mensais por nove horas diárias de trabalho.

O secretário do Ambiente do Rio de Janeiro garantiu que as ecobarreiras são suficientes para garantir Jogos Olímpicos livres de problemas. Ou quase.

"É possível que tenhamos problemas?", perguntou. "Não é impossível. Mas estou muito otimista de que podemos garantir uma regata justa".

- Inimaginável -Martine Grael, filha do cinco vezes medalhista olímpico Torben Grael, é uma feroz crítica do fracasso em descontaminar a baía. Uma foto que fez sensação nas redes sociais mostra a atleta, durante passeio de stand up, fingindo assistir a uma televisão que encontrou boiando na água.

Marco, irmão de Martine, que também disputará os Jogos como atleta da delegação de vela brasileira, afirmou que todos os competidores correm os mesmos riscos. Uma simples sacola de plástico pode acabar com uma regata.

"Poderia acontecer", declarou à AFP o velejador. "Não gosto nem de imaginar isso".

O maior aliado dos navegadores será mesmo a Mãe Natureza: as marés mantêm as áreas escolhidas para as competições relativamente limpas, enquanto o clima seco de agosto, em plano inverno austral, traz menos chuva para empurrar o lixo correnteza abaixo.

Com isso, é possível que as regatas se realizem sem incidentes.

"Mas os Jogos passarão e a poluição ficará", lamentou Torben Grael, que agora é técnico chefe da delegação brasileira.

"Torcíamos pelo melhor" para os Jogos Olímpicos, declarou com tristeza. "Isso não vai acontecer".

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