Protestos contra Temer e Jogos Olímpicos em dia de abertura da Rio-2016

Rio de Janeiro, 5 Ago 2016 (AFP) - Milhares de manifestantes enojados saíram às ruas do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (5) para protestar contra o presidente interino, Michel Temer, e os Jogos Olímpicos ao grito de "Não haverá tocha!", horas antes da cerimônia de abertura.

Com cartazes e mensagens escritas como "Jogos da Exclusão" e "Estado assassino", 500 manifestantes se aproximaram durante a tarde a pouco mais de 1km do Maracanã, cenário nesta sexta-feira da abertura das primeiras Olimpíadas da História na América do Sul, e ao final do protesto foram dispersados pela polícia com gás de pimenta e bombas de efeito moral.

O protesto foi liderado por manifestantes vestidos de preto, encapuzados ou com os rostos cobertos com máscaras antigas e lenços, e eram escoltados por policiais com uniformes de combate e à cavalo, enquanto helicópteros sobrevoavam a área.

Mais cedo, 3.000 pessoas se reuniram pela manhã na praia de Copacabana para se manifestarem contra Temer, encarregado de abrir os Jogos à noite.

"Uma oportunidade perdida""Esta Olimpíada é uma oportunidade perdida, um sonho roubado. Não há legado para a população nem legado para o meio ambiente", disse o manifestante Pedro Cunha, enquanto queimava uma camisa verde e amarela da seleção brasileira pouco antes do confronto com a polícia.

À medida que deslocavam, vários integrantes batiam em lixeiras e postes de luz com paus. Ao menos um manifestante foi detido.

"Calamidade Olímpica", dizia um imenso cartaz fazendo um jogo de palavras com a frase "Cidade Olímpica".

A presidente Dilma Rousseff foi suspensa em maio enquanto é julgada pelo Congresso por suposta maquiagem das contas públicas. Foi substituída de maneira interina por seu ex-aliado e vice-presidente, Michel Temer, a quem Rousseff acusa tramar um golpe.

"Essa festa não foi feita para o povo, os eventos estão longe de onde vive a população pobre. Estou protestando pela precariedade de nossas escolas públicas e por nossos salários, que recebemos em prestações", disse à AFP o professor Guilherme Moreira Dias, de 38 anos, que trabalha em uma escola de ensino fundamental em Duque de Caxias, um dos locais mais pobres do Rio.

Andrea Pavoni, acadêmico italiano de 35 anos que vive no Rio, que estuda geografia urbana e ajudou a organizar o protesto, assegurou que os Jogos "aceleraram o processo de divisão da cidade em uma parte para o ricos e outra para os pobres, sem educação nem serviços".

"Uma fachada""Não às Olimpíadas", "Fora Temer" e "Fora Todos", estavam escritos em alguns dos cartazes que o grupo carregava em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace nesta sexta pela manhã, a alguns passos do estádio olímpico de vôlei de praia, frente aos olhos de centenas de turistas e integrantes de delegações de todas as partes do mundo.

"Queremos aproveitar agora que a atenção está no Brasil para denunciar o que está acontecendo, como estamos caminhando para uma ditadura", disse Ubiratan Delgado, um engenheiro de 59 anos.

Um cartaz mostrava Temer vestido como um irônico Batman, aproximando um machado da cabeça de um operário brasileiro.

"Estão fazendo as Olimpíadas em um momento que as pessoas estão passando muito mal. A Olimpíada é uma fachada, um show. Não representa a realidade do Brasil. Querem mostrar tudo lindo e perfeito", disse Ricardo Parente, um psicólogo de 59 anos.

Dilma Rousseff: "Sou a gata borralheira"Muitos manifestantes estavam vestidos de vermelho, a cor da esquerdista Dilma Rousseff, do PT, e de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Dilma pode perder sue mandato de forma definitiva no final de agosto. Se isso acontecer, Temer governará até o dia 31 de dezembro de 2018.

A presidente suspensa decidiu não aceitar o convite para assistir a cerimônia de abertura porque não quer ser a "gata borralheira" dos Jogos.

"Não acredito que seja apropriado que a presidente afastada assista uma cerimônia cujo mestre de cerimônias é um presidente ilegítimo. Nesta história dos Jogos, eu sou a gata borralheira, te convidam para a festa, mas você tem que ir embora antes, vive nas cinzas", disse recentemente ao jornal chileno La Tercera.

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