Surfistas de Acapulco querem escapar da onda de crimes

Acapulco, México, 5 Ago 2016 (AFP) - Luis Rey Hernández se sente seguro e feliz em sua prancha de surfe, pegando ondas na costa de Acapulco. Mas, fora da água, este surfista de 17 anos tem que aprender a se virar nas violentas ruas deste balneário do Pacífico mexicano.

"El Rey", recém-coroado campeão nacional de surfe sub-18, tem passado perto de diversos tiroteios e uma vez, inclusive, viu um cadáver estirado na rua.

"A violência aqui em Acapulco está muito ruim. O governo, o presidente não fazem nada e é muito perigoso pra gente", lamenta o jovem, apoiado em sua prancha na areia da praia de Revolcadero.

"Sempre estou com medo de sair de casa", assegura o atlético adolescente, com reflexos dourados em seus cabelos pretos. "No mar não tenho medo, me sinto feliz de estar aqui", expressa.

Acapulco é famoso por seus mergulhadores, que surpreendem os turistas com seus espetaculares saltos das pedras para o oceano.

Mas o surfe é cada vez mais popular entre os jovens de bairros castigados pela pobreza e pela violência dos cartéis de droga, que converteram o antes glamouroso porto na capital mexicana do assassinato.

Surfar sobre as rodas dos carrosO presidente da Associação de Surfe de Guerrero, Javier Hernández Castañón "La Charra", relembra que foram os "gringos" que trouxeram o esporte a Acapulco nos anos 1960, quando a cidade era popular entre as estrelas de Hollywood.

"Como não tínhamos pranchas, começamos a surfar nas câmaras (das rodas) de carros ou troncos de madeira. Depois começaram a chegar as pranchas nos anos 1970", relembra Hernández, ex-surfista e tio de Luis Rey.

A associação de surfe tinha 50 membros registrados em Acapulco nos anos 1960, passando a 200 nos anos 1990 e hoje em dia são mais de 700.

Entretanto, "La Charra" lamenta que a onda de crimes esteja afetando o esporte, já que os cartéis atraem muitos jovens.

"Aqui precisamos de apoio para que o surfe atraia os jovens", pede.

As autoridades atribuem a onda de violência às sangrentas disputas entre dois cartéis para ficar com o mercado local de venda de drogas. Mais de 1.300 pessoas foram assassinadas na cidade desde 2015. E ao menos três pessoas foram assassinadas em plena praia neste ano.

Jose Manuel Trujillo, estrela local conhecido como "Yuco", disse que sem o surfe poderia ter acabado como muitos amigos de seu bairro Tres Palos, que agora são membros de facções criminosas. Três deles foram mortos quando adolescentes.

A maioria "são jovens que não têm estudo e a pobreza os faz trilhar esse caminho, que é mais fácil", disse Trujillo, de 29 anos, que agora viaja pelo mundo, tem sua marca de camiseta e também participou do filme de suspense de Hollywood "Águas Rasas" ("The Shallows", 2016).

Fugir de Acapulco"Yuco" e "El Rey", seu cunhado, participaram do Vans Surf Open de Acapulco em meados de julho, um evento internacional que levou centenas de surfistas de todo o mundo para o México.

Mas o diretor do torneio, Gustavo Duccini, lamenta que vários participantes não tenham aparecido depois que os Estados Unidos emitiram, em abril, uma advertência por segurança aos viajantes e que impedia seus trabalhadores de visitar Acapulco.

Luis Rey acabou em segundo na categoria júnior atrás de Jhony Corzo, de Oaxaca. "Os dois melhores jovens do país", segundo a Federação Mexicana de Surfe.

Mas Luis Rey quer tomar um novo rumo fora do México.

"Gostaria de viver em outro país onde fique mais tranquilo, onde possa sair para passear", deseja Luis Rey, que surfa desde os 9 anos. "No Havaí tem boas ondas e não há quase nada de violência", afirmou.

Ainda que seja patrocinado pela marca de sapatos Vans, conseguir dinheiro para competir fora do México é um problema para esse adolescente cujo pai aluga jet skis na praia.

Outras promessas do surfe de Acapulco atravessam problemas financeiros semelhantes.

Mas por mais caro que seja, a família de Gaciel García, um robusto menino de 10 anos, o apoia em seu sonho de se tornar um profissional.

Gaciel agora passa quatro horas por dia dentro do mar depois de ir à escola. Seu pai fica na areia para indicá-lo as melhores ondas e com a mão avisa quando deve ganhar velocidade.

O trabalho de Gaciel teve sua recompensa em junho, quando ganhou o torneio para menores de 12 anos em Baja California, onde seu primo Luis Rey também triunfou.

As lojas de surfe de Acapulco pagaram parte da viagem, mas os García necessitam de mais apoio para poder levar Gaciel para torneios fora do México.

"Esse esporte é para gente rica", confessa ter dito isso uma vez a seu filho Vianey Gallardo, que atende no pequeno restaurante "Pollos Surf".

Ela queria que sua família fosse viver em outra cidade onde Gaciel pudesse seguir com o surfe, pois em Acapulco, resume, "está um pouco feio".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos