Médicos de Aleppo escrevem a Obama sobre sua impotência ante tantas mortes

Alepo, Síria, 11 Ago 2016 (AFP) - Os últimos médicos em exercício nos bairros rebeldes de Aleppo descreveram em uma carta ao presidente americano, Barack Obama, sua impotência diante da morte, num momento de violentos combates entre o regime sírio e os insurgentes.

Por sua vez, a Turquia propôs à Rússia realizar operações conjuntas na Síria contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), embora Ancara e Moscou tenham mantido posturas totalmente opostas neste assunto até a data.

A força aérea russa atacou nesta quinta-feira o reduto da organização em Raqa e deixou 30 mortos, em sua maioria civis.

Em uma carta aberta, 15 dos 35 médicos ainda presentes nos bairros sob controle dos insurgentes alertam que a situação será desesperadora para os civis se o regime sírio de Bashar al-Assad impuser um novo cerco.

No sábado, uma aliança de rebeldes islamitas e insurgentes jihadistas conseguiu romper três semanas de um cerco que provocou um aumento vertiginoso dos preços dos produtos básicos.

Para os médicos, no entanto, a situação continua sendo desesperadora.

"Sem a abertura permanente de uma rota de abastecimento, as forças do regime nos cercarão novamente em pouco tempo, a fome se propagará e os produtos dos hospitais se esgotarão completamente", advertem.

"Não precisamos de lágrimas, nem compaixão, nem orações. Demonstrem simplesmente que são amigos dos sírios", afirmam.

Um dos signatários da carta, Abu al-Baraa, explicou à AFP que a falta de equipamentos e de cuidados provocou "a morte de crianças e de feridos em nossos braços sem que tenhamos podido oferecer algo".

"Devido às capacidades limitadas, somos obrigados a assistir a agonia das crianças".

Atualmente, 250.000 pessoas vivem nas zonas rebeldes e 1,2 milhão nos bairros controlados pelo governo na cidade de Aleppo, a segunda da Síria e um dos principais alvos de um conflito que já deixou mais de 290.000 mortos desde março de 2011.

Sem rastros da 'janela humanitária'"O que mais nos dói, como médicos, é ter que escolher quem viverá e quem morrerá", escrevem os profissionais.

"Crianças jovens chegam à emergência com ferimentos tão graves que devemos priorizar aquelas que têm mais chances de sobreviver", acrescentam. "E, por vezes, nem temos o material necessário para ajudá-las".

Insurgentes e fiéis ao presidente sírio, Bashar al-Assad, se preparam para uma nova batalha com o objetivo de controlar a cidade.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) convocou nesta quinta-feira "todas as partes envolvidas no conflito a garantir a segurança e a dignidade dos civis, incluindo as famílias (...), submetidos a bombardeios constantes, violência e deslocamentos".

Os violentos combates e bombardeios noturnos diminuíram de intensidade às 07h00 (04h00 de Brasília), mas não cessaram. Eles se concentram no sul de Aleppo, região que o regime tenta tomar dos rebeldes, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

O exército turco anunciou na quarta-feira que a partir desta quinta abriria uma "janela humanitária" e suspenderia seus bombardeios todos os dias das 07h00 às 10h00 (04h00 às 7h00 de Brasília) "para garantir a segurança total das fileiras (de veículos) que entram em Aleppo".

No entanto, segundo um correspondente da AFP em Aleppo, nesta quinta-feira não chegou à cidade nenhum tipo de abastecimento, já que os combates se concentram na estrada que os rebeldes abriram no sábado para romper o cerco.

Por outro lado, na região de Raqa (norte), capital de fato do grupo Estado Islâmico na Síria, ao menos 30 pessoas, em sua maioria civis, foram abatidas e outras 70 ficaram feridas nesta quinta-feira em dez bombardeios russos, informou o OSDH.

A Rússia, aliada do regime do presidente sírio, afirmou que "destruíram uma fábrica de armas químicas dos subúrbios do nordeste da cidade".

rh-kar/mjg/sk/feb/jvb/tjc/ma

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos