Líder cubano Fidel Castro completa 90 anos citando inimizade com EUA

Havana, 13 Ago 2016 (AFP) - Fidel Castro citou em um artigo sua inimizade com os Estados Unidos, ao completar neste sábado 90 anos em uma Cuba que lhe presta homenagem, embora já não seja o mesmo país que dirigiu com mão de ferro por quase meio século.

O governo de seu irmão Raúl, que restabeleceu relações com Washington em 2015 e realiza uma cautelosa abertura econômica, não anunciou nenhum grande ato oficial pelo aniversário de Fidel, mas o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, está na ilha para saudá-lo.

Governantes como o presidente russo, Vladimir Putin, e o boliviano, Evo Morales, destacaram na data seu legado.

"Na Rússia você goza de um grande respeito como homem de Estado de destaque que dedicou toda a sua vida a serviço do povo de Cuba", escreveu Putin em um telegrama publicado no site do Kremlin, no qual chamou o líder cubano de "querido amigo".

Afastado do poder há uma década por motivo de doença, o líder da revolução cubana descreveu em seu texto "O aniversário" trechos de sua infância, da Revolução cubana e voltou a citar suas obsessões: o risco nuclear, a superpopulação mundial e os Estados Unidos.

O líder histórico, que segundo a inteligência cubana enfrentou 634 complôs de assassinato, lembrou "os planos de eliminação" orquestrados a partir dos Estados Unidos e criticou a falta de "estatura" do discurso do presidente Barack Obama na viagem ao Japão em maio.

"Considero que faltou estatura ao discurso do presidente dos Estados Unidos quando visitou o Japão, e lhe faltaram palavras para pedir desculpas pela matança de centenas de milhares de pessoas em Hiroshima, apesar de conhecer os efeitos da bomba", disse em um artigo datado na véspera e publicado pela imprensa estatal.

Shows e exposições fotográficas, literárias e gráficas, além de inúmeros cartazes com sua imagem comemoram na ilha as nove décadas de um dos homens mais influentes e controversos do mundo no último século.

Em Cuba "Fidel é tudo, é esporte, é a cultura... é a rebeldia. O cubano é rebelde por Fidel", diz Manuel Bravo, um vidraceiro autônomo de 48 anos, enquanto caminha em frente a um dos múltiplos locais de Havana adornados com o lema: "Fidel 90 e mais".

"Logo serei como os outros"Fidel Castro instaurou um regime socialista de partido único criticado por violações de direitos humanos, mas que deu saúde e educação gratuitas a milhares de cubanos.

O adversário dos Estados Unidos na Guerra Fria está aposentado e só recebe visitas esporádicas de personalidades. Nos últimos anos, a velhice e as sequelas deixadas por uma severa doença intestinal acabaram com ele.

A última vez que apareceu em público foi em 19 de abril, no encerramento do Congresso do Partido Comunista Cubano. Lá Fidel, com voz trêmula, atribuiu sua longa vida ao acaso e conclamou os cubanos a manterem o rumo socialista.

"Logo serei como todos os outros. Para todos chegará a sua vez", disse em seu discurso.

Mas Fidel não é só venerado em sua velhice. Também é combatido por aqueles que acabaram na prisão por se oporem a ele.

"Não sei se poderei desejar um bom aniversário a ele", assinalou à AFP a dissidente Marta Beatriz Roque, de 71 anos, que foi presa duas vezes durante o governo do ex-presidente. Atualmente, Roque está em liberdade condicional.

Para ela, o legado do nonagenário líder é o "caos, a falta de solução" para os problemas econômicos, e o "controle da vida de todas as pessoas no país".

Influência indiretaMesmo sem estar à frente da ilha de 11,3 milhões de habitantes, poucos duvidam do predomínio de Fidel Castro.

Ele segue exercendo "uma influência indireta através de algumas figuras do regime, que estão incomodadas com as reformas que Raúl fez", disse à AFP Kevin Casas-Zamora, consultor internacional e doutor em Ciências Políticas da Universidade de Oxford.

Apenas sua presença física - agrega - atua como "um muro nas reformas econômicas e políticas mais agressivas".

Fidel já não é o mesmo devido à idade, mas Cuba tampouco é o país que ele governou desde o triunfo da revolução, em 1959.

Sem abrir mão do socialismo, Raúl Castro flexibiliza o sistema soviético dando maior abertura ao trabalho privado e aos investimentos estrangeiros, e terminou com as restrições de viagens e de compra e venda de casas e automóveis.

Mas, sobretudo, restabeleceu as relações diplomáticas com os Estados Unidos, o inimigo jurado de Fidel Castro, apesar de o embargo econômico continuar vigente.

O ex-presidente nunca se opôs à aproximação, mas não cedeu em suas críticas.

"Para a maioria dos latino-americanos, Fidel Castro representa a heroica resistência à hegemonia e controle dos Estados Unidos", comenta Peter Hakim, analista do centro de pensamento Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

Entretanto, acrescenta, "não acredito que se mantenha como herói por muito mais tempo (...) e suspeito que será visto como um homem que foi capaz de impor sua vontade aos cubanos". "O mundo moderno deixou Fidel e Cuba em segundo plano", opina.

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