Mesmo derrotado, Estado Islâmico segue aterrorizando a cidade síria de Manbij

Manbij, Síria, 15 Ago 2016 (AFP) - Fátima estava feliz em retornar para sua casa em Manbij, libertada dos extremistas, mas sua felicidade mudou abruptamente quando, ao abrir a porta, seu marido ficou ferido na explosão de uma mina deixada pelos recém-expulsos donos da cidade.

Desde 6 de agosto, quando o grupo Estado Islâmico (EI) foi expulso de Manbij pelas forças árabe-curdas, apoiadas por bombardeios da coalizão internacional dirigida pelos Estados Unidos, os habitantes retornam a este ex-reduto extremista do norte da Síria.

Ao chegar no domingo, dois dias após a fuga dos últimos extremistas, a equipe da AFP ouviu uma poderosa explosão no centro da cidade.

Instantes depois, Fátima, com o rosto banhado em lágrimas, lamentava e pedia que a levassem para ver o marido, ferido no rosto e na perna pela explosão.

O homem foi transportado a Kobane, localizada mais ao norte, para ser hospitalizado ali, depois que as clínicas e hospitais de Manbij pararam de funcionar devido aos combates.

"As pessoas pediam paciência a Mohamad ao abrir a porta, mas ele teimosamente insistiu em ir ver se sua casa havia sido saqueada", contou esta mulher de 40 anos, que limpava as lágrimas com seu véu preto.

Assim como este casal, os moradores estavam impacientes em voltar para ver suas casas, embora as operações de desminagem prosseguissem. O jornalista da AFP ouviu ao menos outras duas explosões nesta cidade.

A frase "Manbij libertada" é visível por toda parte. Mas também o alerta "Atenção às minas".

Minas "por toda parte""As minas explodem por toda parte. Quando uma pessoa abre a porta, quando caminha pela rua", afirmou Hassan al-Hussein, vizinho de Fátima. "Meu primo morreu ontem na explosão de uma mina", acrescentou.

"Alguém precisa vir desminar a cidade para que possamos viver! E, além disso, não há água ou farinha, e todos os hospitais estão fora de serviço", se queixou.

Pequenas caminhonetes levavam os civis à cidade, entre eles muitas crianças com sorriso nos lábios que faziam o sinal da vitória. Carregavam sacos plásticos repletos de pertences e muitos colchões.

Nos postos de controle, combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS, uma aliança árabe-curda) verificavam seus documentos.

Por toda parte eram vistas cenas de caos, com os telhados das casas destruídos e as ruas cheias de destroços. Nas varandas, diante das lojas devastadas, nas calçadas, homens e crianças tentam tirar os escombros com pás ou vassouras.

No centro da cidade, Najwa, de 41 anos, com sua filha de 7 anos ao lado, voltava para sua casa, onde encontrou o piso coberto de escombros e os muros enegrecidos.

"Televisão proibida""Queimaram tudo. Este é o quarto do menino, fico triste de vê-lo assim", afirmou a mulher, que não se atreveu a entrar nos outros cômodos por medo das minas.

"Os terroristas chegaram à nossa região há três anos, mas é como se 30 anos tivessem se passado", acrescentou, com o rosto triste e cansado.

Sua filha Amani contou que o EI proibia as crianças de ir à escola. "Espancavam os que ousavam ir, diziam que éramos infiéis", acrescentou.

"A televisão também foi proibida", contou uma menina, que começou a chorar e se escondeu atrás de sua mãe.

Na sexta-feira, a saída dos últimos extremistas provocou cenas de júbilo, com mulheres queimando o niqab que lhes foi imposto pelo EI. Os homens, por sua vez, faziam a barba, que era obrigatória nos territórios controlados pelo grupo ultrarradical.

No muro de uma escola, é possível ver o desenho de uma mulher e inscrições que ressaltam a importância de usar esse véu integral que só deixa os olhos à mostra.

"Só ensinavam às crianças versículos do Alcorão, mas também a manejar as armas e a matar", afirmou Mohamad al Abdullah, ex-professor de 53 anos, junto a sua casa em ruínas.

"Mesmo as meninas eram obrigadas a se cobrir completamente", declarou Aya, de 11 anos. "Agora posso colocar o que quiser e estou feliz", completou.

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