Omran é uma das milhares de crianças vítimas da guerra na Síria

Beirute, 19 Ago 2016 (AFP) - A foto do pequeno Omran sentado no interior de uma ambulância coberto de poeira e sangue comoveu o mundo, mas na Síria em guerra milhares de outras crianças vivem traumatizadas pelos ataques aéreos, mutiladas ou prestes a morrer nas cidades sitiadas.

O menino de quatro anos, cuja imagem foi compartilhada por milhões de internautas nas redes sociais e que estampou as manchetes do mundo inteiro, é, segundo Washington, "a verdadeira face da guerra" na Síria, que em cinco anos e meio deixou mais de 290.000 mortos.

"O caso de Omran não é excepcional. A cada dia, tratamos dezenas de crianças que sofreram ferimentos graves", relata o Dr. Abou al-Baraa, cirurgião pediátrico na região rebelde de Aleppo, entrevistado nesta sexta-feira por telefone.

Em um vídeo filmado pela rede de militantes do Centro de Meios de Comunicação de Aleppo (AMC), o pequeno Omran aparece limpando seu rosto ensanguentado com a mão. Depois olha para sua mão e, sem acreditar, limpa-a em seu assento.

Segundo o médico, "há milhares de histórias de crianças amputadas, feridas na barriga ou na cabeça" desde o início da guerra, em 2011. O conflito atingiu um ano depois a segunda maior cidade do país, dividida entre bairros controlados pelo governo (oeste) e outros pelos rebeldes (leste).

"Ontem (quinta-feira) mais sete pessoas morreram em um bombardeio em Salhine (bairro rebelde). Uma criança foi ferida na região do peito e na cabeça. Tivemos que parar a hemorragia e fizemos uma transfusão de sangue", conta Dr. Abou Baraa.

"Tudo em vão. Ele morreu. Ia fazer seis anos".

'O mundo não faz nada'Para o pediatra, a imagem chocante de Omran "não vai mudar nada".

"O mundo olha diariamente fotos e vídeos no YouTube de crianças resgatadas dos escombros, mas não faz nada. Contenta-se com belas palavras", lamenta.

Comovidos, os internautas compartilham uma foto-montagem que mostra a imagem de Omran sentado entre os presidentes americano e russo, Barack Obama e Vladimir Putin, mostrando que as crianças na Síria são as vítimas indefesas do jogo de poderes internacionais envolvidos no conflito.

Em outra montagem, Omran está sentado na cadeira reservada para a Síria nas cúpulas da Liga Árabe, muitas vezes criticada por sua inação.

Já na caricatura do sudanês Khalid Albaih, a imagem de Omran aparece ao lado da de Aylan, o menino de três anos cujo corpo sem vida em uma praia comoveu o mundo em setembro de 2015 e cuja imagem se tornou símbolo da tragédia dos refugiados sírios.

"A escolha reservada para as crianças da Síria", foi o título dado pelo cartunista, que acrescentou: "se você ficar", sob a imagem de Omran, e "se você partir", sob a de Aylan.

Outros internautas e partidários do presidente Bashar al-Assad compartilharam, por sua vez, imagens de crianças feridas por tiros rebeldes nos bairros de Aleppo sob controle do governo, observando que civis também morrem e são feridos deste lado.

A foto de Omran "é uma lembrança do horror da guerra e do impacto brutal sobre as crianças", afirma à AFP Juliette Touma, chefe da comunicação do Unicef para o Oriente Médio e África do Norte.

Zonas sitiadas evacuadasSegundo a Unicef, um terço das crianças sírias, juntamente com Omran, conheceram apenas a guerra. Segundo a organização, estas crianças "cresceram rápido demais" em um contexto de "violência, medo e desenraizamento".

Em Aleppo, "as crianças encontram-se na linha de fogo, porque os bombardeios visam ambulâncias, clínicas, abrigos, creches, hospitais e ruas", diz Touma, afirmando que 100.000 dos 250.000 habitantes da zona leste de Aleppo são crianças.

A parte rebelde é bombardeada pelos aviões do regime ou de seu aliado russo. Contudo, a Rússia negou nesta sexta-feira que um de seus ataques aéreos tenha atingido o menino Omran.

"Os aviões russos que operam na Síria jamais atacam alvos no interior de zonas povoadas", assegurou um porta-voz militar, Igor Konashenkov, em um comunicado.

No total, o conflito afeta 8,4 milhões de crianças sírias, mais de 80% delas, seja na Síria ou no exílio, de acordo com a Unicef.

"Há 6 milhões de crianças que precisam de assistência humanitária urgente em toda a Síria. E, das 600.000 pessoas que vivem em estado de sítio, metade delas são crianças", de acordo com Touma.

Neste contexto, ao menos 18 civis, entre eles 13 crianças doentes, foram retirados nesta sexta-feira pelo Crescente Vermelho da localidade de Madaya, sitiada pelo regime sírio.

A guerra também privou pelo menos 2,8 milhões de crianças na Síria e nos países de acolhimento de ir à escola, outras são forçadas a trabalhar ou se alistar nas fileiras dos beligerantes como crianças-soldados. Para as meninas, muitos são forçadas a se casar cedo.

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