Vítimas de casamentos forçados vão ao julgamento de Khmer Vermelho no Camboja

Em Phnom Penh

O tribunal que julga os crimes dos Khmer Vermelhos no Camboja se concentrou nesta terça-feira (23) na prática maciça de casamentos forçados, muitas vezes acompanhados de estupros, um assunto ainda tabu mesmo após quarenta anos.

Dezenas de milhares de homens e mulheres foram obrigados a casar, diversas vezes em cerimônias coletivas, no auge de um plano do Khmer Vermelho para estimular a natalidade.

Uma cambojana abriu nesta terça-feira o ciclo de depoimentos sobre essa questão falando sobre seu casamento forçado no início de 1978 com um miliciano khmer vermelho vinte anos mais velho que ela.

"Forçaram-nos para casarmos" durante uma terrível cerimônia coletiva com outros doze casais, declarou a mulher, cujo nome não foi revelado.

Diante deste tribunal especialmente criado em Phnom Penh, com a ONU, explicou ter aceitado, pois aqueles que rejeitavam se casar desapareciam, como ocorreu com sua prima.

Desde o momento em que assinaram os papéis do casamento, seu novo marido quis estuprá-la, explicou.

"Eu resisti. Então ele reclamou com seu chefe, Phann, que me chamou", acrescentou.

Este a estuprou depois de ameaçá-la com uma pistola e enviou-a para seu marido, contou a mulher. No final de 1978 ela teve uma filha.

"Nunca contei essa história a ninguém, mas o momento de falar chegou", concluiu a mulher que, após a queda do regime e por pressão social, continuou vivendo com seu esposo a quem foi imposta.

Depois dela, Sou Sotheavy, um transsexual de 75 anos, contou que foi obrigado a se casar com um colega do campo de trabalho.

"Anunciaram-nos que a população do Camboja não ia bem e que teríamos que nos casar para repovoar o país", declarou, acrescentando que os guardas vigiavam os recém-casados nos campos para se assegurarem que seria "consumado" o matrimônio.

Os octogenários Nuon Chea e Khieu Samphan, únicos alto dirigentes do regime de Pol Pot ainda vivos, comparecem pelas atrocidades cometidas entre 1975 e 1979 em nome de uma utopia marxista que pretendia desfazer a sociedade da coação do dinheiro, além de proibir a religião.

Dois milhões de cambojanos, um quarto da população, morreram de exaustão, fome ou em torturas e execuções.

Nuon Chea e Khieu Samphan já foram condenados à prisão perpétua em um primeiro processo. Este segundo julgamento, iniciado em 2014, deverá ser finalizado neste ano e seu veredicto é esperado no final de 2017.

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