Dilma Rousseff lança contraofensiva ao impeachment e pede novo processo

Brasília, 1 Set 2016 (AFP) - A agora ex-presidente brasileira Dilma Rousseff iniciou sua contraofensiva: menos de 24 horas depois de ser destituída por decisão do Senado, sua defesa pediu nesta quinta-feira ao Supremo Tribunal Federal para anular o processo e fazer outro julgamento.

O Senado aprovou com folga, por 61 votos a 20, o impeachment de Dilma Rousseff, acusada de ter violado a Constituição, ao aprovar gastos sem o conhecimento do Congresso e financiar o Tesouro atrasando pagamentos aos bancos públicos.

Dilma, que sempre proclamou sua inocência, disse que sua decisão representava um golpe de Estado parlamentar.

"É uma fraude contra a qual vamos recorrer em todas as instâncias possíveis", advertiu esta economista e ex-guerrilheira de 68 anos, que enfrentou o segundo processo de impeachment desde a volta da democracia, em 1985, depois do que levou em 1992 à queda do hoje senador Fernando Collor.

Seu advogado de defesa, José Eduardo Cardozo, que foi seu ministro da Justiça, entrou nesta quinta-feira com a primeira de duas apelações previstas na Suprema Corte.

A primeira solicita "a suspensão de imediato dos efeitos da decisão do Senado Federal que condenou por crime de responsabilidade a presidente da República" e a realização de "um novo julgamento", segundo o texto a que a AFP teve acesso.

Ele pede, ainda, restabelecer Temer à Presidência interina, cargo que ocupava desde que Dilma foi suspensa do cargo, à espera do veredicto do Senado.

A hoje destituída tacha Temer, que foi seu vice-presidente, de "usurpador" e "golpista".

"Golpista é você que está contra a Constituição, né? Golpe é aquele que propõe uma ruptura constitucional", reagiu o dirigente do partido de centro-direita PMDB, alegando que o processo cumpriu com todos os requisitos contemplados pela Carta Magna de 1988.

Apoios e repúdiosTemer foi empossado pouco após o impeachment e, como presidente oficial, viajou imediatamente para a China para participar da cúpula do G20 de potências industrializadas e emergentes, onde espera elevar o perfil do Brasil, um gigante regional que se debate contra a recessão e a crise política.

O secretário de Estado americano, John Kerry, expressou rapidamente o interesse de Washington em "manter a forte relação bilateral entre as maiores economias e democracias do hemisfério", segundo um comunicado da Presidência brasileira.

Os presidentes de Argentina, Mauricio Macri; do Peru, Pedro Pablo Kuczynski; e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também saudaram Temer.

A reação foi totalmente oposta de parte dos governos de esquerda da América Latina: o presidente socialista Nicolás Maduro congelou as relações e retirou seu embaixador. O equatoriano Rafael Correa tachou o processo de "traição" e também retirou seu encarregado de negócios, máximo representante diplomático no Brasil.

Cuba e Bolívia também condenaram a destituição de Dilma.

Em resposta, Brasília chamou a consultas seus embaixadores na Venezuela, Bolívia e Equador.

Nas ruas de São Paulo, centenas de manifestantes protestaram contra seu governo e, pelo terceiro dia consecutivo, a marcha acabou em confronto com a polícia.

Uma estudante ficou ferida e perdeu um olho nos distúrbios, enquanto dois fotógrafos foram detidos, segundo a Agência Brasil.

Ajustes Temer, tão impopular quanto Dilma, prometeu colocar o Brasil "de volta nos trilhos" e espera terminar o atual mandato presidencial, em 2018, sob aplausos do povo.

"Vai ser difícil", admitiu, em uma situação de profunda recessão, com inflação alta e desemprego que afeta 12 milhões de pessoas.

Com o aval dos mercados, buscava consolidar apoios no Congresso para por em marcha um ajuste fiscal e aprovar reformas impopulares à lei do trabalho e da previdência social.

A agência de classificação de risco americana Moody's advertiu que o Brasil está longe do consenso político para aprovar todas as medidas econômicas, mas destacou que o fim do julgamento de Dilma "elimina o elemento de incerteza política que pesava sobre a economia brasileira", segundo um comunicado.

Em uma guinada de surpreendente ao cenário político, a oposição a Dilma Rousseff no Senado não conseguiu inabilitá-la para exercer cargos públicos, o que permite que se candidate para exercer cargos eletivos.

"Voltaremos, voltaremos para continuar nossa marcha rumo a um Brasil no qual o povo é soberano", afirmou a presidente após o impeachment.

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