A manhã que mal começou: o testemunho de um repórter da AFP no 11/9

Rio de Janeiro, 9 Set 2016 (AFP) - Dia 11 de setembro de 2001, 08h40 de uma linda manhã ensolarada em Nova York. A visão da janela da redação da AFP no 34º andar de um prédio em Manhattan é gloriosa.

As cabeças das águias cromadas do edifício da Chrysler, polidas uma semana antes por faxineiros que mais pareciam acrobatas voadores, brilham intensamente contra um céu azul e claro.

Por mais de um ano enviei pedidos de permissão para vê-los trabalhar e fazer uma matéria sobre eles - sem sucesso.

Tirei meu capacete e disse olá para meu colega Christophe Vogt, que estava às voltas com resultados de empresas e outros dados econômicos. Liguei a TV e lá estava a logomarca azul e branca do New York One, canal que exibe notícias da Grande Maçã. Tomei um gole do meu cappuccino do Starbucks - duplo e extra quente - como de costume.

O locutor do NY1 mencionou que havia informes sobre um incêndio em uma das torres do World Trade Center, como mostravam as câmeras montadas nos arranha-céus para monitorar constantemente a parte sul de Manhattan.

Eu trabalhava na redação da AFP em Nova York há dois anos. O suficiente para entender que, quando algo acontece em 'um dos emblemáticos elementos que decoram o famoso horizonte da cidade - seja o Empire State Building, a Ponte do Brooklyn, a Estátua da Liberdade ou as Torres Gêmeas do World Trade Center - é matéria.

Baseado nas imagens da TV - não tínhamos uma visão das torres, que ficam bem ao sul da ilha de Manhattan -, comecei a digitar um nota simples, um "factual" no jargão da AFP, com o título "Fogo na torre do World Trade Center". O imenso buraco em uma das laterais do prédio é, a princípio, camuflado pela fumaça e, pela TV, realmente parece um incêndio.

Então o locutor do NY1 menciona que há testemunhas falando de um avião que se chocou contra a torre. Eu penso: um avião? Como pode um piloto se chocar contra as Torres Gêmeas quando tem tanto espaço ao redor delas? Será que se sentiu mal? Então o telefone toca. É a AFP de Washington, e o editor-chefe para a América do Norte, Francis Kohn, me pergunta:

- Michel, está vendo a CNN?

- Não, o New York One.

- Coloca na CNN.

A câmera do NY1 estava exibindo do norte com direção ao sul e não captou quando o voo 11 da American Airlines se chocou contra a torre norte.

O primeiro boletim de "breaking news" chegou ao sistema da AFP às 08h55, horário de Nova York: "Avião bate contra o World Trade Center de Nova York".

Operação Bojinka Um avião comercial? Meu pensamento foi direto para a "Operação Bojinka", uma conspiração dos radicais islâmicos Ramzi Yousef e Khalid Sheikh Mohammed, em 1995, para explodir aviões americanos sobre o Pacífico, mas que foi frustrada pelas Filipinas. Alguns meses antes eu havia coberto as primeiras audiências em um tribunal de Nova York sobre os atentados de 1998 às embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia, onde a ideia de usar aviões como mísseis tinha sido mencionada.

Então, às 9h30, ao vivo na televisão, o voo 175 da United Airlines bateu contra a torre sul. Meu Deus, o que está acontecendo? Será um longo dia - e uma longa noite.

Os chefes em Washington decidiram enviar seus dois correspondentes da ONU, Michel Leclercq e Robert Hollowar, para o local. Eles planejavam pegar o último metrô antes de o serviço fechar. Com os olhos grudados na TV e os editores-chefes no telefone, eu disparava as matérias. Primeira atualização: "Dois aviões colidem nas torres gêmeas do World Trade Center em Nova York".

Um minuto antes das 10h00, após 56 minutos pegando fogo, a torre sul oscila levemente e desmorona, como em câmera lenta, deixando para trás sua silhueta em pó. Estarrecedor. Levei 30 segundos para compreender o que estava vendo e enviei o boletim de "breaking news". Vinte e oito minutos mais tarde, a torre norte desaba. Eu deveria esperar por isso, estar preparado para isso, mas como qualquer outro eu estava paralisado, incrédulo, congelado de medo.

URGENTE: "A segunda torre do World Trade Center, atingida por uma aeronave comercial, explodiu e desmoronou alguns minutos depois da outra torre ter se desintegrado em um amontoado de entulho e poeira".

No escritório, Valerie Leroux, nossa segunda jornalista de Economia, chegou logo depois de Matthieu Rabechault, um estudante de jornalismo que estava fazendo estágio conosco. Com Christhophe, nós tínhamos os detalhes, uma testemunha dos acontecimentos, informações que mandávamos para Washington, onde as principais "prévias" (na AFP, as prévias consistem em notícias mais elaboradas, com um formato maior) eram escritas. Washington, onde às 9h37 um outro avião colidiu com o prédio do Pentágono.

Onze aviões Quantos aviões sequestrados ainda estão voando? Quais são os alvos? A Casa Branca? O Capitólio? A sede da ONU, a três ruas atrás de nós? Quantos mortos terão? Eu lembro que a Operação Bojinka tinha como objetivo 11 aviões.

As pessoas por trás da elaboração desse ataque provavelmente fizeram isso melhor do que qualquer um imaginou ser possível. Em Manhattan, os metrôs pararam, e o tráfego ficou paralisado. Seguindo o conselho do prefeito Rudy Giuliani, pessoas na ponta sul de Manhattan, por baixo da Canal Street, começavam a se mover para o norte. Uma silenciosa e atordoada multidão, alguns cobertos com uma camada de poeira cinza, em movimento.

A rede de celulares estava congestionada e por isso não tínhamos como contactar Robert, Michel ou nosso fotógrafo Stan Honda. Suas companheiras nos ligavam regularmente e eu não sabia o que dizer a elas - eu não era capaz de dizê-las "não se preocupem, eles não estavam nas torres quando elas desabaram". Depois de várias horas, eles chegaram na agência da AFP - na 46th Street -, onde foram recebidos como heróis. Eles começaram a escrever suas matérias sobre as cenas vistas.

Com eles de volta à redação, eu poderia ir até o local. Desde que cheguei aos Estados Unidos, tive que revalidar minha licença e pagar por uma vaga de estacionamento, mas nunca fui tão grato por ser um dos raros motociclistas em Manhattan. Apenas alguns veículos de policiais e bombeiros passavam pela Terceira Avenida, com as sirenes aos berros. Alguns táxis se apressavam em direção ao norte, até o Harlem. As calçadas estavam cheias de gente. Na Canal Street, um policial apontava sua arma para que eu parasse. "Ninguém a sul da Canal!", mas em um país em que não ligam para a credencial de imprensa, uma emitida pela polícia de Nova York ainda abria portas.

- Se eu estacionar no posto de gasolina e for andando, há problema?

- Não, tenha cuidado.

Estava silencioso como em um mosteiro. Silêncio que eu só havia visto em Nova York em dias de nevasca. Eu caminhava através da nuvem negra, e os reflexos do fogo podiam ser vistos acima dos telhados. Não era neve que estava acumulada nas ruas, mas uma substância estranha, uma mistura de cinzas, poeira e pedaços de papel. Na esquina da Greenwich and Harrison, a fumaça ficava mais densa, sufocando tudo. As ruas, os carros, as placas, as caixas de correio, os hidrantes, as latas, as prateleiras com jornais, os sinais de trânsito, os andaimes, um cachorro desesperançoso tentando se sacudir para ficar limpo, tudo desaparecia debaixo da espessa nuvem de poeira de 15 centímetros.

A mortalha cinzenta abafava sons e passos para que apenas as sirenes da polícia e dos bombeiros ecoassem ao longe. Havia sapatos em todos os lugares, a maioria deles femininos - sapatos de salto abandonados para correrem mais rápido.

Choro silenciosoNo meio da Barclay Street, a figura pálida de um policial se movia em pequenos passos. Ele olhava para frente, mas parecia não ver nada, ombros caídos, arrastando os pés, boca aberta. O coldre de sua arma estava vazio e seu cassetete pendurado de cabeça para baixo em suas costas. Perguntei-lhe se estava bem, se queria um pouco de água, se eu podia continuar em direção ao World Trade Center. Ele virou a cabeça, seu olhar passou por mim e não respondeu. Sentou-se em cima de algo, tirou o boné e contra sua perna caiu no choro em silêncio.

O rugido dos aviões, como lágrimas, atravessavam a noite. Dois pontos brilhantes irrompiam acima da minha cabeça, jatos militares. Um oficial de polícia murmurava "Deus, eu espero que eles sejam nossos". Ele verificou o meu cartão de polícia de Nova Iorque e me deixou passar.

Fumaça, destroços e caosVirei à direita na West Broadway e lá, no final da rua, estavam as duas torres de 110 andares que eu via de todos os cantos de Nova York, que eu tinha usado para me encontrar quando me perdia no Bronx ou em Nova Jersey, que ficavam como vigias nas noites de nevoeiro - tudo o que restava era aquilo, fumaça, caóticos destroços cujo contorno eu mal podia distinguir.

Chamas escapavam do emaranhado de metais, vigas torcidas, muros desmoronados, montanhas de entulho. O quão alto era? Contei os andares de um edifício ao lado que havia sobrevivido intacto. Quatro, cinco, seis... 110 andares compactados em apenas seis. Havia incêndios por toda parte, explodindo e desaparecendo. Gigantes jatos de água dos bombeiros caiam como chuva. À direita, um caminhão vermelho havia sido achatado como uma panqueca de metal que tinha apenas 24 centímetros de espessura.

"Sai daí ou eu vou te prender!""Ei, você, não vá mais longe. Cartão de polícia de Nova Yorque? Eu não me importo. Sai daqui, não vê que é perigoso? Olha, nós estamos colocando barreiras. Sai daí ou eu vou te prender!".

Dei uma volta no local, vi bombeiros abatidos, policiais em estado de choque, funcionários da Cruz Vermelha procurando um pouco perdidos como tratar a situação. Olhei para meu relógio e vi que já era hora de voltar para a redação, para escrever a história a tempo dos prazos europeus.

Encontrei minha moto Suzuki embaixo da cobertura do posto de gasolina, guardada por um jovem oficial de polícia com um sorriso triste. Passei pela prefeitura, deserta, pela Union Square, onde as primeiras velas eram acesas, onde estranhos se abraçavam, pela Ponte do Brooklyn, onde multidões de pedestres começavam a se desfazer. De volta à agência, todas as televisões estavam ligadas, havia uma atmosfera séria, tensa, mas calma, e amigos e colegas felizes por me verem de volta.

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