Eduardo Cunha perde mandato, mas não influência

Rio de Janeiro, 13 Set 2016 (AFP) - O todo-poderoso deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi destituído por seus pares por uma contundente maioria de votos, mas a influência desse estrategista político ultraconservador está longe de acabar, afirmam os analistas.

Acusado pela Comissão de Ética de ter mentido ao declarar que não tinha contas na Suíça, Cunha foi destituído de seu mandato por 450 votos contra 10, com 9 abstenções, no final da noite de segunda-feira (12). Em um momento em que se temia que a sessão não alcançasse o quórum necessário, ela aconteceu com apenas 43 ausências.

O deputado evangélico, que comandou o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, enfrenta inúmeras denúncias de corrupção que agora passarão para as mãos da Justiça comum e, em particular, para o juiz Sérgio Moro - responsável pela condução da Operação Lava-Jato.

Eduardo Cunha, que este mês completará 58 anos, tampouco espera recuperar rapidamente o foro privilegiado, pois sua destituição implica na proibição de exercer cargos públicos até janeiro de 2027.

"O resultado da votação mostra o grau de isolamento de uma pessoa que chegou a estar à frente de um dos grandes poderes da República", disse à AFP o analista político Maurício Santoro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Reflete também, segundo Santoro, "um dos raros momentos de unanimidade nacional desses últimos anos entre a Câmara e a população, que em torno de 80% pedia sua destituição, inclusive entre os que consideravam-no um mal necessário para a destituição de Dilma".

Apelidado de "Maquiavel brasileiro", Cunha abriu as portas para o impeachment de Dilma - acusada de maquiar as contas públicas - em junho de 2015, em retaliação à recusa do Partido dos Trabalhadores (PT) de salvá-lo do comparecimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.

Mas, depois de ser suspenso de suas funções como presidente da Câmara e de seu mandato em maio passado, por parte do Supremo Tribunal Federal, a situação tomou um rumo diferente.

"É o preço que estou pagando para que o Brasil fique livre do PT", declarou, após seu voto na segunda-feira (12).

Antes disso, lembrou aos colegas que pelos menos 160 deles também enfrentam investigações judiciais. Também ameaçou escrever um livro, contando tudo o que sabia sobre cada um deles.

Enfraquecido, mas vivoNem seus argumentos e suas ameaças veladas sobre possíveis revelações conseguiram salvá-lo. Foi abandonado por todos os seus aliados e até "por mais de 99% dos membros de seu próprio partido", o PMDB, ao qual o presidente Michel Temer também pertence, apontou Santoro.

Cada vez mais perto das eleições municipais, que acontecem em outubro, ficava difícil apoiá-lo, inclusive para os ultraconservadores da bancada "BBB" - do boi (agronegócio), da bíblia (evangélicos) e da bala (partidários do porte de armas) - aponta outro analista, Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo.

Cunha "se tornou um para-raios das acusações de corrupção no Brasil", acrescenta.

"Ficou enfraquecido, mas não está politicamente morto e tornará o governo Temer difícil. Continuará presente na vida política", prevê Malini.

No caso de o cerco judicial se estreitar para ele e sua família, pode ficar tentado a fazer uma "delação premiada", procedimento que vem sendo adotado desde o início da Lava-Jato com o objetivo de reduzir a pena dos acusados.

Sua influência continuará sendo sentida também na "manutenção da política reacionária, impulsionada há dois anos pelo Congresso", acrescenta.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos