Guerrilha colombiana das Farc inicia conferência para confirmar a paz

El Diamante, Colombia, 17 Set 2016 (AFP) - A guerrilha das Farc inicia neste sábado em uma área remota do sudeste da Colômbia sua décima conferência nacional com o objetivo de confirmar um histórico acordo de paz e se tornar um movimento político legal após 52 anos de conflito armado.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) debaterão até a próxima sexta-feira em seu tradicional reduto de Caguán o pacto alcançado com o governo de Juan Manuel Santos após quase quatro anos de negociações em Cuba.

Em um enorme palco e diante de 200 jornalistas nacionais e internacionais, o líder máximo das Farc, Timoleón Jiménez, "Timochenko", iniciará a conferência, que pela primeira vez é realizada com o aval das autoridades e aberta à imprensa.

A região dos Llanos del Yarí, onde no passado operava o histórico líder e fundador das Farc, Manuel Marulanda, "Tirofijo", falecido em 2008 de aparentes causas naturais, foi escolhida por ser de influência das Farc há mais de 40 anos, informou o gabinete de imprensa da conferência.

Centenas de guerrilheiros procedentes de toda a Colômbia, entre eles 29 membros do Estado Maior das Farc e 200 delegados das diferentes estruturas rebeldes, deverão se pronunciar sobre o fim de um conflito que envolveu guerrilhas, paramilitares e agentes do Estado por mais de meio século, com um saldo de 260.000 mortos, 45.000 desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

Além disso, 24 rebeldes presos terão uma autorização especial do governo para comparecer ao evento, após o qual deverão voltar às diferentes prisões do país onde estão reclusos.

"É o evento mais importante em nossa história", disse a jornalistas horas antes da inauguração o comandante Carlo Antonio Losada, um dos chefes da guerrilha nascida em 1964 de uma revolta camponesa, e que segundo estimativas oficiais conta com 7.000 combatentes.

- Da guerra à paz -"Primeiro éramos uma organização militar e agora vamos abrir caminho para uma organização política", afirmou à AFP Vanesa Hurtado, uma guerrilheira de 26 anos que entrou há 12 na organização.

Enquanto descascava batatas para o café da manhã deste sábado junto ao seu companheiro Alexander, de 21 anos, que como ela ingressou no grupo quando era menor de idade, Vanesa lembrou emocionada quando conheceu, há alguns dias, o "camarada Timo".

Esta jovem, que integra um front de 400 rebeldes e que deseja "estudar idiomas" quando retornar à vida civil, embora pense em "continuar militando nas Farc como partido", disse estar "muito orgulhosa" do líder guerrilheiro.

"Há gente aqui que nunca viu Timochenko", explicou à AFP Kyle Johnson, do International Crisis Group, uma ONG de acompanhamento do conflito colombiano.

O especialista destacou a relevância para as Farc do encontro, onde não apenas a ausência de Marulanda será sentida, mas também a de outros comandantes históricos, como seu sucessor Alfonso Cano, morto em uma operação do Exército em 2010, ou Raúl Reyes, abatido em 2008.

"É a primeira vez em 25 anos que líderes e guerrilheiros estarão juntos. A última vez em que se viram foi na oitava Conferência, em 1993, porque a nona, em 2007, foi (via) digital" pelo cerco das forças militares, disse.

- Um termômetro -Acadêmicos e políticos estão convencidos de que a conferência aprovará o acordo de paz, que será assinado por Timochenko e pelo presidente Santos em uma cerimônia no dia 26 de setembro em Cartagena.

O pacto de 297 páginas estipula, além de pautas para o desenvolvimento agrário, solução ao problema das drogas ilícitas e participação política, o desarmamento dos guerrilheiros e sua reinserção social, assim como o sistema especial de justiça, ao qual poderão se beneficiar, e seu compromisso de reparar as vítimas.

"Não duvidamos que o conjunto de delegados aprovará os acordos alcançados em 24 de agosto em Havana", disse Losada.

Mas para especialistas como William Rozo Álvarez, do Centro de Investigação de Educação Popular (Cinep), para além da ratificação, a conferência será um termômetro do poder da liderança.

"É importante ver quem estará e quem não estará para ver o grau de comando das Farc e de apoio ao acordo", disse à AFP.

Para entrar em vigor, o pacto ainda precisa ser aprovado pelos colombianos em um referendo convocado para 2 de outubro.

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