Rússia denuncia deterioração da trégua na Síria e culpa EUA

Aleppo, Síria, 17 Set 2016 (AFP) - Um bombardeio neste sábado contra o exército sírio, em uma área onde as tropas estão cercadas pelo grupo Estado Islâmico (EI), deixou dezenas de mortos, um ataque em plena trégua que Damasco e Moscou atribuíram à coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

"Caças de guerra da coalizão bombardearam uma das posições do exército sírio (...) perto do aeroporto de Ezzor", indicou o comunicado, ressaltando que havia baixas, embora sem informar detalhes.

A coalizão internacional contra o grupo Estado Islâmico (EI) afirmou que bombardeou o que achava ser uma posição de combate jihadista na Síria, mas que interrompeu a operação depois do alerta de Moscou sobre a possibilidade de serem militares sírios.

"A Síria é um teatro de operações complexo, com diferentes forças militares e milícias que atuam em um perímetro próximo, mas a coalizão jamais atacaria intencionalmente uma unidade militar síria", diz o comunicado do comando de forças americanas no Oriente Médio. Várias dezenas de militares sírios teriam sido mortos no bombardeio.

O exército russo confirmou que 62 soldados foram mortos em um ataque.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) assegurou que foram pelo menos 30 militares mortos.

A Rússia convocará uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU após os bombardeios da coalizão internacional contra uma posição do exército sírio, anunciou a porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Maria Zajarova.

"O embaixador da Rússia na ONU foi encarregado de convocar com urgência uma reunião do Conselho de Segurança sobre essa questão", afirmou Zajarova à rede de televisão Rossia 24.

"Vamos exigir de Washington explicações completas e muito detalhadas que deverão ser expostas ao Conselho de Segurança da ONU", acrescentou.

Na Síria está vigente uma trégua negociada pelos Estados Unidos e Rússia desde segunda-feira, embora esteja sendo violada.

Essa trégua abrange o exército sírio e os grupos rebeldes, mas não os considerados mais extremistas, o EI e a frente Fateh al Sham.

As posições do EI são consequência regularmente bombardeadas pela coalizão liderada por Estados Unidos e pela Rússia.

O bombardeio em Deir Ezzor "é um ataque ousado e perigoso contra o Estado e o exército sírio, e uma clara evidência de que os Estados Unidos e seus aliados apoiam o grupo terrorista Daesh", diz o comunicado sírio, referindo-se ao EI.

- 'A situação na Síria se deteriora' -Depois de na sexta-feira as violações à trégua ter resultado em violentos combates e na morte de civis, o general russo Vladimir Savchenko advertiu em uma videoconferência com o Estado Maior russo que "a situação na Síria se deteriora".

"Nas últimas 24 horas, o aumento de ataques cresceu fortemente", com 55 ataques contra posições do governo e contra civis, acrescentou, acusando os rebeldes de "aproveitar a trégua para se reagrupar e se reabastecer com munições e armamento".

A Rússia acusou novamente os Estados Unidos de não cumprir seus compromissos no âmbito do acordo de cessar-fogo na Síria, anunciado por Moscou e Washington em 9 de setembro em Genebra.

"Se a parte americana não tomar medidas apropriadas para cumprir com seus compromissos como parte do acordo (...), serão totalmente responsáveis pelo fracasso do cessar-fogo em território sírio", afirmou o general Viktor Poznikhir, do Estado-Maior russo, em uma coletiva de imprensa.

O presidente russo, Vladimir Putin, em viagem ao Quirguistão, disse estar otimista, mas acusou a oposição síria de continuar ativa.

"Vemos tentativas de se reagruparem entre estes terroristas, tentam mudar (...) de nome para preservar suas capacidades militares", declarou, segundo a agência de notícias Intefax.

Neste sábado, a Rússia acusou a "oposição moderada" síria de "ter feito fracassar" o cessar-fogo em vigor há cinco dias, após ter contabilizado cerca de cinquenta ataques supostamente perpetrados pelos rebeldes e bombardeios atribuídos à coalizão internacional contra o exército de Damasco.

O centro russo de coordenação das atividades na Síria informou aos Estados Unidos que "a oposição moderada fez fracassar o cessar-fogo" instaurado na Síria na segunda-feira, declarou o ministério russo de Defesa, citado pela agência pública Ria-Novosti.

Segundo o acordo, os Estados Unidos devem pressionar para que os rebeldes sírios se distanciem claramente dos extremistas da Frente Fateh al-Sham (ex-Frente al-Nosra), excluídos da trégua, assim como o grupo Estado Islâmico (EI).

Em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU cancelou no último minuto de sexta-feira uma reunião a pedido de Estados Unidos e Rússia, os dois padrinhos da trégua.

A reunião, considerada a "última possibilidade de acordo" deveria permitir examinar a possibilidade de uma resolução para apoiar o acordo de trégua, entregar ajuda humanitária e favorecer uma solução política à crise síria.

- Ajuda humanitária não chega -Dezenas de milhares de civis, em particular nos bairros rebeldes sitiados de Aleppo, não receberam ainda a ajuda humanitária prometida.

As partes em conflito não se retiraram da rota do Castello, situada ao norte da cidade e escolhida pela ONU para levar a ajuda humanitária aos bairros rebeldes, no leste da cidade, onde vivem mais de 250.000 pessoas.

A Casa Branca informou sobre a "profunda preocupação" do presidente Barack Obama sobre o fato de que "o regime sírio continua bloqueando" o transporte de ajuda.

Sem garantias de segurança suficientes, os caminhões da ONU, repletos de alimentos e medicamentos, continuam bloqueados em uma zona entre a fronteira turca e síria.

"Não houve progressos, mas a ONU está pronta para agir enquanto tiver aval", disse à AFP um porta-voz do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários.

Um correspondente da AFP em Aleppo indicou neste sábado que a cidade estava tranquila após o disparo de alguns foguetes durante a noite.

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