'Não' vence plebiscito sobre Farc na Colômbia por menos de 1%

Bogotá, 3 Out 2016 (AFP) - Contra todos os prognósticos, a Colômbia optou pelo "não", neste domingo (2), rejeitando o pacto de paz que buscava pôr fim a 52 anos de um sangrento conflito com a guerrilha Farc - de acordo com número oficial divulgado após a apuração de 99,95% dos votos.

Com 50,21%, o "não" liderava a disputa contra o "sim" (49,78%), pouco mais de uma hora depois do término dessa histórica votação. O nível de participação chegou a 37,43%.

Embora pelo menos 6.346.055 pessoas tenham votado no "sim", superando o mínimo de 4,5 milhões de votos exigidos para se aprovar o acordo, 6.408.350 colombianos disseram "não".

Na sede da campanha pelo "sim", no emblemático hotel Tequendama, no centro de Bogotá, o clima era de luto.

Depois de reconhecer a derrota, o presidente Juan Manuel Santos garantiu que continuará buscando superar mais de meio século de guerra com a guerrilha marxista.

"Não me renderei e continuarei buscando a paz até o último dia do meu mandato, porque esse é o caminho para deixar um país melhor para os nossos filhos", declarou Santos, em pronunciamento transmitido em rede nacional da sede presidencial, a Casa de Nariño, cercado por sua equipe negociadora nos diálogos de Havana.

Já as Farc disseram que "lamentam profundamente que o poder destrutivo dos que semeiam ódio e rancor tenha influenciado a opinião da população colombiana", afirmou o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko.

Falando de Havana, sede das negociações por quase quatro anos, Timochenko garantiu que os rebeldes "mantêm sua vontade de paz e reiteram sua disposição de usar apenas a palavra como arma de construção para o futuro".

Cerca de 34,9 milhões de colombianos foram convocados para se pronunciar sobre o pacto firmado em 26 de setembro passado entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo de Juan Manuel Santos, em um dia que transcorreu com tranquilidade.

Momentos depois do anúncio da vitória do "não", o Exército de Libertação Nacional (ELN) defendeu, em sua conta no Twitter, que "apesar dos resultados" é preciso "continuar lutando pela paz".

"Convocamos a sociedade colombiana a continuar buscando saída negociada para o conflito armado", tuitou o ELN.

"Apesar dos resultados adversos para os acordos de Havana, os colombianos devem continuar lutando pela paz com transformações", acrescentou o grupo rebelde, que estava nas conversas iniciais para percorrer o mesmo caminho das Farc em negociação com o governo Santos.

"É como se fosse um Brexit", disse à AFP a advogada e diretora da Bar Human Rights Committee, Kirsty Brimelow, convidada para a assinatura em Cartagena, referindo-se à saída da União Europeia votada pelos britânicos que também não foi antecipada pelas pesquisas.

Os colombianos se dizem cansados da guerra, mas muitos resistem a fazer concessões às Farc. A guerrilha marcou a história recente do país com massacres, sequestros, extorsões e desaparecimentos forçados.

Um dos eleitores que votaram no "não" foi o aposentado José Gómez, de 70 anos, o qual alegou que "é um absurdo premiar alguns traficantes de drogas assassinos que fizeram do país um desastre".

O governo já havia dito não ter um plano B em caso de derrota no plebiscito que perguntava: "Você apoia o acordo final para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura?".

As últimas pesquisas apontavam a vitória do "sim", com 20% das adesões frente ao "não", firmemente apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010).

"A paz é ilusória. Os textos de Havana são decepcionantes", criticou o senador e ex-presidente.

"Não entreguemos a Colômbia", repetiu Uribe, para quem o acordo concede impunidade aos rebeldes e encaminha o país para o "castrochavismo" de Cuba e Venezuela.

'Ódio venceu'Os resultados são um reflexo da profunda polarização no país.

"O ódio venceu, venceu o ódio contra as Farc", disse à AFP o diretor do centro de análise Cerac, Jorge Restrepo.

"Ficamos mergulhados em uma profunda crise política e com consequências econômicas muito negativas", acrescentou.

Agora, são as Farc que "vão decidir se continuam com o desarmamento, com a reintegração e com o cessar-fogo bilateral", disse Restrepo, referindo-se ao processo iniciado sob a supervisão das Nações Unidas, no cumprimento do estabelecido no âmbito do acordo já selado.

O pacto de 297 páginas com as Farc tem como objetivo acabar com o principal e mais antigo conflito armado nas Américas, um complexo emaranhado de violência entre guerrilhas, paramilitares e agentes do Estado, com balanço de 260.000 mortos e 6,9 milhões de deslocados.

O acordo previa o ingresso das Farc na vida política de forma legal. Seus 5.765 combatentes - segundo números da guerrilha - iriam se concentrar em 27 lugares para seu desarmamento e posterior reinserção à vida civil. Agora, porém, o que reina é a incerteza absoluta.

"Ninguém estava preparado para isso. Não havia plano B. Agora, não sabemos o que pode acontecer, mas está claro que as condições dadas às Farc para o acordo pesaram muito e a falta de mobilização do eleitorado colombiano também", disse à AFP o engenheiro Jorge Cifuentes, de 55 anos.

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