Interpol reporta morte de ex-repressor argentino na África do Sul

Buenos Aires, 14 Out 2016 (AFP) - Jorge Raúl Vildoza, um dos ex-chefes do emblemático centro clandestino de detenção ESMA, durante a ditadura argentina, morreu em 2005 na África do Sul, onde estava foragido, segundo um informe da Interpol, entregue ao juizado argentino encarregado do caso, informou nesta sexta-feira uma fonte judicial.

Diferentemente de centenas de militares julgados e condenados por crimes contra a humanidade, Vildoza, capitão da Marinha reformado, conseguiu fugir da Justiça argentina, que não contempla julgamento à revelia.

Em 2007, no entanto, Vildoza foi julgado à revelia em Roma e condenado à prisão perpétua pelo desaparecimento de três ítalo-argentinos.

Chefe, entre 1976 e 1980, da Escola de Mecânica da Armada (ESMA), ele foi acusado pelo roubo e apropriação de um filho de desaparecidos, nascido neste centro clandestino de detenção da ditadura (1976/83).

Além disso, foi apontado como alguém que estava no comando dos 'voos da morte', quando atiravam prisioneiros drogados de aviões nas águas do rio da Prata.

"Recebemos o informe da Interpol ontem (quinta-feira), mas estamos checando", disse à AFP uma fonte do juizado federal de Sergio Torres, encarregado do caso da ESMA, que pediu para ter sua identidade preservada.

Por procedimento, até que o juizado certifique a documentação sobre o óbito, Vildoza continua sendo considerado foragido.

Quando Ana Maria Grimaldos, esposa de Vildoza, foi detida na Argentina em julho de 2012, declarou que seu marido tinha morrido em 27 de maio de 2005 em Johannesburgo, com 75 anos, o que não pode ser constatado.

O casal estava foragido desde 1986, quando saiu clandestinamente da Argentina com destino à Suíça, levando o filho de desaparecidos que tinham assumido como próprio e que tinha nove anos na época.

Em 1990, o jovem encontrou na internet uma ordem de captura contra os que acreditava que eram seus pais e desde Londres se comunicou com o juizado argentino.

Ele foi submetido a um exame de DNA, que deu positivo, e o rapaz recuperou sua identidade como Javier Penino Viñas.

Ele é filho de Hugo Penino e Cecilia Viñas, que estava grávida de sete meses quando ela e o companheiro foram sequestrados em 13 de julho de 1977 em Buenos Aires. A moça deu à luz na ESMA. Ambos continuam desaparecidos.

No cativeiro, nos primeiros meses de retorno à democracia, Cecilia comunicou-se várias vezes por telefone com a família. Sua voz ficou gravada em um áudio dilacerante, que serviu de prova nos julgamentos.

No ano passado, Grimaldos foi condenada a seis anos de prisão pelo roubo da identidade de Javier. O jovem contou à Justiça que em 2005 assistiu em Johannesburgo ao funeral de Vildoza que "foi cremado com o nome de Roberto Sedano", afirmou.

Segundo o relatório entregue na quinta-feira pela Interpol, as impressões digitais de Sedano correspondem às de Vildoza.

A ditadura deixou 30.000 desaparecidos e 500 bebês foram roubados, dos quais 121 recuperaram a identidade - o último deles, esta semana, aos 40 anos.

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