Derrota eleitoral abala coalizão de Bachelet e abre via para volta da direita

Santiago, 24 Out 2016 (AFP) - A derrota da coalizão de Michelle Bachelet nas municipais de domingo, no Chile, abre uma crise no governo e prepara o caminho para o ex-presidente de direita Sebastián Piñera retornar ao poder nas eleições gerais de 2017.

Contrariando todas as previsões, a direita venceu as eleições municipais por 38,45% dos votos (contra 37,05%), tirando da centro-esquerda municípios-chave como Santiago, Providencia e Maipu. A oposição elegeu 23 novos prefeitos, enquanto a Nova Maioria, coalizão governista, perdeu 27.

O influente jornal El Mercurio qualificou de "terremoto eleitoral" os resultados de domingo, que registraram um recorde de abstenção de 65%, enquanto o analista vinculado ao governo, Eugenio Tironi, referiu-se a um "tsunami".

Atingida por escândalos de financiamento irregular de campanhas políticas - que mantém sob investigação várias de suas figuras mais proeminentes -, a própria direita nem imaginou a magnitude da vitória conquistada.

"Fomos tão criticados que não sabíamos como nos sairíamos", reconheceu nesta segunda-feira Hernán Larraín, presidente da ultra-conservadora União Democrata Independente (UDI), que obteve a maior votação nas municipais, levando quase 80 prefeituras.

Com este resultado, o panorama eleitoral para a aliança opositora não podia ser mais auspicioso com vistas às eleições gerais de novembro de 2017. "A probabilidade de que Michelle Bachelet entregue novamente a faixa presidencial ao campo adversário - e não seria estranho, ao próprio Sebastián Piñera - se acrescenta dia a dia", avaliou Tironi, em uma coluna de opinião no jornal El Mercurio.

Desta forma, Bachelet poderia devolver em março de 2018 a faixa presidencial que o próprio Piñera - o empresário milionário que se tornou em 2010 o primeiro presidente de direita a governar o Chile desde a volta do país à democracia - passou para ela quatro anos atrás.

Castigo para BacheletO que levou os chilenos a dar as costas a Bachelet? A dirigente política foi eleita há quase dois anos com 62% dos votos e obteve também uma ampla maioria nas duas Câmaras do Congresso.

Bachelet prometeu profundas reformas sociais - como a da educação e a trabalhista -, reivindicadas há anos pelos chilenos. Mas na hora de executá-las, a presidente pareceu cometer mais erros do que acertos.

"Esta eleição foi um castigo para Bachelet e isto significou uma vitória para a direita. Talvez a direita não tenha tido muito mérito em vencer, mas neste turno, o único que se precisava era estar na oposição a Bachelet", explicou Patricio Navia à AFP, cientista político da Universidade Diego Portales.

"As pessoas se importam mais com a boa gestão do que com a corrupção. Nos lugares onde as pessoas tiveram que decidir entre pessoas acusadas de corrupção que gerenciam bem e pessoas honestas que não sabem como administrar, preferiram o primeiro", acrescentou o analista.

A derrota foi especialmente relevante em comunidades de classe média, nas quais historicamente a centro-esquerda tinha uma grande adesão, o que, na opinião de Navia, refletiu "o profundo repúdio ao programa que tão obstinadamente a presidente quis implementar" e que as pessoas percebem que lhes tira benefícios.

Um duro repúdio à política de "retroescavadora" que propôs no início do governo de Bachelet um dos principais dirigentes da situação, Germán Quintana.

"Não se pode pretender fazer isto tudo ou muito em tão pouco tempo, sem o capital político e acho que isto nos custou caro", admitiu nesta segunda-feira, em um tipo de mea culpa, o senador social-democrata Ricardo Lagos-Weber.

Seu pai, o ex-presidente Ricardo Lagos (2000-2006), que aspira a se lançar como candidato único do governo, ficou muito debilitado após a derrota de domingo, embora ele não tenha dado tudo por perdido.

"Unidos vamos vencer, divididos esta coalizão terá dificuldades", disse nesta segunda-feira, reafirmando que nos últimos meses do governo Bachelet, a coalizão precisará corrigir o rumo das reformas.

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