Minoria iraquiana Kakai retorna a aldeias libertadas dos extremistas

Perto de Kalak, Irak, 28 Out 2016 (AFP) - "Propriedade do Estado Islâmico". Apesar do slogan macabro que ainda marca a porta de sua casa no norte do Iraque, Guli Hassan Warani, de 42 anos, limpa seu pátio com entusiasmo e retira os escombros que ocupavam o local.

"Ninguém vem nos ajudar, então temos que fazer o trabalho sozinhos. Os extremistas incendiaram minha casa. Separo o que posso recuperar", afirma, enquanto na horta ao lado seu marido tenta fazer os rabanetes crescerem.

Libertada pelas forças curdas no fim de maio após mais de dois anos de ocupação, esta aldeia situada na planície de Nínive, entre Erbil e Mossul, se parece com uma cidade fantasma. É integralmente povoada pelos Kakai, uma minoria religiosa curda que segue uma doutrina esotérica e iniciática de inspiração sufi, considerada infiel pelos extremistas sunitas.

"Somos diferentes. Além disso, alguns de nós trabalhamos com os americanos e com os peshmergas (combatentes curdos), e estas são todas as razões para que (o grupo extremista Estado Islâmico) EI nos deteste. No front, nenhuma aldeia sofreu como a nossa. Os extremistas queriam destruir nossa cultura", conta Saman Khali, de 30 anos.

"Cerca de cinquenta casas estão habitadas atualmente, o que significa que apenas 10% dos moradores retornaram", afirma Salman Ahmed Abdullah, um dos dois chefes locais.

"Mas eu entendo. Não há água, nem eletricidade, nem escola. E há minas por toda parte, nas casas vazias e nos campos", acrescenta. Sobre algumas portas pintaram grandes 'X' vermelhos para dissuadir os moradores de entrar.

Ele, que havia fugido, assim como todos os outros, em agosto de 2014, voltou no dia 14 de setembro para se instalar em uma casa que havia sido transformada em quartel de comando pelas forças locais do EI.

Encontrou móveis destruídos e paredes repletas de slogans glorificando os extremistas. Na cozinha, um pedaço de concreto tampa a entrada de um túnel que os extremistas utilizavam como depósito de equipamentos e como caminho para a casa vizinha.

Não poupou esforços para deixar sua casa com o brilho de antes. As colunas estão pintadas, o teto decorado, e as cortinas penduradas. Mas outros tiveram menos sorte. Não muito distante dali, ao redor de uma cratera de quatro metros de profundidade, dez casas foram destruídas por uma explosão e reduzidas a ruínas.

Com explosivos não há reconstrução"O EI havia preparado um caminhão-suicida repleto de explosivos para atacar os peshmergas, mas ele foi destruído durante um bombardeio da coalizão", explica Kameran Khalil, gêmeo de Saman.

No jardim de sua casa, uma rampa de morteiro abandonada é observada sobre uma colina que domina a planície onde antes se situava o front de combate.

"Voltei na mesma tarde em que os peshmergas retomaram a aldeia. Estava muito animado. E descobri que, quando estavam indo embora, os extremistas incendiaram minha casa. Fiquei muito mal. E foi imprudente da minha parte voltar tão cedo. Um vizinho, por exemplo, ativou uma armadilha ao girar a maçaneta de sua porta e casa desabou sobre ele", conta.

A remoção de minas é um tema crucial, ressalta, por sua vez, o vice-presidente de Fraternidade no Iraque, Jean Vallette d'Osia, que dirige uma associação francesa que ajuda as minorias religiosas do país.

"É claro, houve uma desminagem militar sobre os eixos principais. Depois vem a época da desminagem civil: casa por casa, campo por campo. Sem desminagem não há reconstrução, e sem reconstrução as populações não voltam", insiste.

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