Turquia detém diretor de redação de jornal de oposição

Istambul, 31 Out 2016 (AFP) - A polícia turca prendeu o editor e vários jornalistas do Cumhuriyet, o principal jornal de oposição ao presidente Recep Tayyip Erdogan, após a divulgação de várias revelações embaraçosas para o governo.

Após a tentativa de golpe de Estado, o governo do presidente Erdogan iniciou uma vasta campanha de repressão em todos os setores da sociedade, em particular na imprensa, com a detenção de dezenas de jornalistas e o fechamento de uma centena de meios de comunicação.

O jornal anunciou que uma dúzia de dirigentes e jornalistas, incluindo o editor Murat Sabuncu, foram presos e levados sob custódia no início da tarde. Um total de 16 mandados de prisão foram emitidos, de acordo com o jornal.

A ação contra o Cumhuriyet é parte de uma investigação sobre as atividades do jornal relacionadas ao pregador Fetullah Gülen, acusado de ter fomentado o fracassado golpe de Estado de 15 de julho, e aos militantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), de acordo com um comunicado da procuradoria de Istambul.

As prisões ocorrem dois dias após a publicação no Diário Oficial de decretos anunciando a demissão de 10.000 funcionários públicos e o fechamento de 15 jornais, revistas e agências de notícias, principalmente sediadas no sudeste predominantemente curdo do país.

Um mandado de prisão também visa Kadri Gürsel, membro da Organização Mundial de defesa da imprensa IPI e colunista no Cumhuriyet. A polícia revistou as casas de várias figuras do jornal, incluindo de Akin Atalay, presidente da diretoria, do jornalista Güray Oz e do cartunista Musa Kart.

Conhecido por suas caricaturas de Erdogan, Kart disse que "não tem nada a esconder, tudo o que eu escrevi, tudo o que desenhei, tudo é público".

Em um texto publicado em seu site, Cumhuriyet assegura que "lutará até o final pela democracia e a liberdade" e lembra que "o jornalismo não é um crime".

'Última fortaleza'Cumhuriyet, último grande jornal de oposição turco, adotou sob a direção de Can Dündar, predecessor de Sabuncu, uma linha dura frente ao presidente Erdogan, multiplicando as investigações que embaraçam o governo.

Ele publicou em 2015 uma investigação alegando, com o apoio de um vídeo, que os serviços secretos turcos haviam fornecido armas a rebeldes islâmicos à Síria.

"Eles atacam a última fortaleza", reagiu Dündar, que é alvo de um processo por "revelar segredos de Estado" e que agora vive na Alemanha.

Acreditando que "uma nova linha vermelha foi cruzada contra a liberdade de expressão na Turquia", o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schultz, disse que os "expurgos em massa parecem ser motivados por considerações políticas, em vez de uma lógica legal ou de segurança".

Em Berlim, o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, afirmou que a liberdade de imprensa é "fundamental para qualquer Estado de direito", enquanto o ministério francês das Relações Exteriores lembrou que era um "componente essencial da sociedade democrática".

Em sua edição desta segunda-feira, o Cumhuriyet denunciou um "golpe contra a oposição", em referência à publicação de dois decretos no sábado anunciando o fechamento de vários meios de comunicação pró-curdos e a supressão das eleições de reitores das universidades, que passam a ser escolhidos por Erdogan.

"Temos que proteger a democracia e a liberdade. Devemos proteger o jornal Cumhuriyet", disse Kemal Kiliçdaroglu, líder do Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), principal formação de oposição.

As autoridades turcas negam qualquer violação da liberdade de imprensa, alegando que os únicos jornalistas detidos são aqueles ligados a "organizações terroristas", expressão utilizada pelo poder para designar o PKK e a rede de Gulen.

De acordo com a Associação de Jornalistas da Turquia (TGC), 170 veículos de imprensa foram fechados, 105 jornalistas detidos e 777 credenciais de imprensa canceladas desde a tentativa de golpe de 15 de julho.

A Turquia é 151º no índice de liberdade de imprensa compilado pela RSF em 2016.

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