A árdua tarefa de identificar quem morre tentando cruzar a fronteira com os EUA

Tucson, Estados Unidos, 3 Nov 2016 (AFP) - Uma meia de bebê de listras laranjas, uma oração escrita à mão em um papel amassado e uma mecha de cabelo: estas são pistas valiosíssimas para identificar as centenas de corpos de migrantes que pereceram tentando atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Enquanto os políticos discutem a melhor maneira de abordar o problema da imigração ilegal, tema dominante nessa campanha presidencial, Robin Reineke, uma antropóloga de 34 anos, junta as peças do custo humano causado do êxodo da América Central e do México para os Estados Unidos.

Os objetos encontrados no brutal deserto de Sonora do Arizona podem ser anódinos, mas Reineke se dedica a cada um deles para identificar os migrantes que os usavam.

"O que eu tenho visto na última década é uma catástrofe humana", disse Reineke à AFP na ONG Colibrí, que ela dirige, situada no centro de medicina legal do condado de Pima.

"Em média 175 restos mortais são recuperados no deserto todo ano, isso equivale a um acidente aéreo em um só ano no sul do Arizona por 10, 15 anos", comparou.

O número de mortos cresceu significativamente a partir do ano 2000, quando o governo americano reforçou a segurança na fronteira após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O número de agentes fronteiriços aumentou e foram construídas grades divisórias.

Essas medidas obrigaram os migrantes desesperados, que fogem da violência e da pobreza em seus países, a buscar rotas alternativas, remotas e perigosas, onde muitas vezes se perdem e morrem desidratados ou, no inverno, de hipotermia.

"É uma morte muito dolorosa, horrível e solitária", expressou Reineke. "E é muito duro saber que há gente passando por isso a meia hora de carro da minha casa", acrescentou.

O número de mortos dispara nos meses de verão, quando a temperatura pode chegar a 50 graus no deserto, segundo Gregory Hess, encarregado do necrotério de Pima.

"Agora estamos com 900 corpos sem identificação", disse Hess. A maioria foi recuperada depois de 2000, informou.

Quebra-cabeçaOs objetos pessoais que são encontrados perto dos cadáveres - fotos de bebês, recibos de banco, carteiras despedaçadas ou um número de telefone - são colocados em sacos plásticos e etiquetadas como pertencentes a "John Doe" ou "Jane Doe", nomes que se dão nos Estados Unidos aos 'joões Ninguém', pessoas não identificadas.

Os pacotes, armazenados em armários laranja, ainda preservam o odor característico do corpo em decomposição ou nas palavras de Reineke, "o cheiro da morte".

Com essas provas começa o sombrio trabalho de armar o quebra-cabeça da identidade do homem, da mulher e da criança.

Um terço, uma fivela de cinto ou a foto de uma criança podem coincidir com os relatos de pessoas desaparecidas na América Central e no México e que são enviados a esse centro.

"É importante analisar esses objetos já que é como se os mortos estivessem falando com os vivos. Mostram que essas pessoas não representavam uma ameaça, e, sim, pessoas que muito preocupadas com sua família, que vieram para cá trabalhar, para fugir da violência", ressaltou.

Das vítimas, 75% são homens. O restante, mulheres e algumas poucas crianças.

Reineke senta-se e lembra de "Aristeo e suas fotos ao lado de um bolo de casamento" ou de "Ricardo com as fotos de sua filha ao lado da árvore de natal".

"Falamos com mães que nos dizem que seus filhos ligaram para dizer "estou cruzando (a fronteira) hoje. Estou usando isso, te amo e se não te vir de novo quero que saiba que estou pensando em você'", disse.

O caso que mais lhe comoveu foi o de um adolescente, que não tinha mais do que 16 anos, e foi encontrado com uma flor de papel laranja ao lado. "Era tão jovem e saudável. Sua autópsia apontou que ele tinha o estômago cheio de cactus espinhosos e só de pensar no que ele deve ter passado no deserto me faz muito mal", expressou.

Muitos migrantes caminham de dois a cinco dias no deserto e depois morrem pelo cansaço, pelo forte calor ou pelo frio do deserto.

Embora seu trabalho possa ser esgotante do ponto de vista emocional, Reineke acredita que a ajuda dada às famílias que querem chorar seus mortos é uma grande motivação para ela e sua equipe.

"Considero o luto como um direito humano", afirmou a antropóloga que critica a proposta do republicano Donald Trump de construir um muro na fronteira e deportar os migrantes em situação irregular.

"É mais doloroso ouvir as palavras de Donald Trump sobre imigrantes do que ver os mortos no deserto", desabafou.

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