Justiça turca declara prisão preventiva de políticos pró-curdos

Diyarbakir, Turquia, 4 Nov 2016 (AFP) - A justiça turca declarou a prisão preventiva dos dois co-presidentes do principal partido pró-curdo da Turquia, o Partido Democrático dos Povos (HDP), no âmbito de uma investigação antiterrorista vinculada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), informou a agência Anatolia.

Poucas horas depois das prisões, ao menos nove pessoas, entre elas dois policiais, morreram em Diyarbakir na explosão de um carro-bomba em frente a um edifício da polícia nesta cidade, que também deixou mais de uma centena de feridos.

Um tribunal de Diyarbakir, no sudeste do país, decidiu declarar prisão preventiva contra Selahattin Demirtas e Figen Yüksekdag, assim como contra três deputados deste grupo, a terceira força parlamentar da Turquia, que foram detidos na noite de quinta-feira.

A detenção de Selahattin Demirtas e Figen Yüksekdag constitui mais um passo nos expurgos lançados pelo governo turco desde o golpe de Estado frustrado de julho e que atinge em cheio os setores pró-curdos.

O ataque ocorrido depois das prisões foi atribuído pelo primeiro-ministro, Binali Yildirim, ao PKK, uma organização classificada como terrorista por Ancara, Washington e Bruxelas.

Mas segundo o grupo de inteligência SITE, "uma fonte interna da agência Amaq informou que combatentes do Estado Islâmico detonaram um carro com explosivos diante do quartel da polícia em Diyarbakir, no sudeste da Turquia".

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, se declarou extremamente preocupada com as prisões e indicou no Twitter que convocará uma reunião de embaixadores da UE em Ancara. Berlim anunciou, por sua vez, que convocou o encarregado de negócios turco.

Já os Estados Unidos disseram estar "muito preocupados" com estas prisões.

"O HDP convoca a comunidade internacional a reagir contra este golpe do regime (do presidente Recep Tayyip) Erdogan", pediu o partido em sua conta no Twitter.

- Vigilância -Demirtas e Yüksekdag estão sendo investigados por suas supostas relações com o PKK. Segundo a Anatolia, foram detidos por sua rejeição em comparecer às convocações judiciais.

A Turquia está em estado de emergência desde a tentativa de golpe de Estado de julho. Vários países europeus, assim como ONGs, acusam as autoridades turcas de perseguir os opositores e não apenas os supostos golpistas. Um total de 35.000 pessoas foram detidas e dezenas de milhares foram demitidas ou suspensas no âmbito de um imenso expurgo que atinge diferentes setores da administração pública.

No fim de semana passado, os dois prefeitos de Diyarbakir foram detidos por "atividades terroristas" e uma dúzia de meios de comunicação pró-curdos foram fechados por decreto.

Estas medidas agravaram a situação no sudeste do país, ensanguentado por combates diários entre o PKK e as forças de segurança desde a ruptura de uma frágil trégua no verão de 2015 que minou um processo de paz destinado a colocar fim a um conflito que já matou mais de 40.000 pessoas desde 1984.

O presidente Recep Tayyip Erdogan considera que o HDP está estreitamente relacionado ao PKK e não acredita que o partido, cujos membros são chamados por ele de "terroristas", seja um interlocutor legítimo.

Em maio, o Parlamento turco levantou a imunidade dos deputados buscados pela justiça, uma medida muito criticada porque era dirigida principalmente contra os líderes do HDP.

"Os que querem nos interrogar deverão nos levar à força. Não iremos de maneira voluntária", desafiou Demirtas na época.

Demirtas, chamado de "Obama curdo" por seu carisma, é considerado um possível rival de Erdogan.

Sob sua liderança, o HDP ampliou sua base eleitoral para além da comunidade curda da Turquia (15 milhões de pessoas) e se transformou em um partido moderno, aberto às mulheres e a todas as minorias.

Desde a entrada do HDP no Parlamento, em junho de 2015, algo inédito que ajudou a privar o partido AKP - no poder - de sua maioria absoluta, Erdogan multiplicou os ataques pessoais e as acusações de vínculos com o PKK contra Demirtas.

O HDP desmente ser "a ala política" do PKK e acusa Erdogan de querer instaurar um regime ditatorial.

- Difícil acesso às redes sociais -Em meio à repressão, o acesso às redes sociais e a aplicativos de mensagens estava muito difícil nesta sexta-feira.

A plataforma de vigilância TurkeyBlocks informou em seu site ter "detectado restrições de acesso a várias redes sociais, incluindo Facebook, Twitter e YouTube a partir de 01H20 (local) de sexta-feira".

Segundo TurkeyBlocks, Twitter, Facebook e YouTube não funcionavam e o acesso a WhatsApp, Skype e Instagram era limitado.

Questionado por jornalistas, Yildirim, não confirmou diretamente o envolvimento das autoridades no bloqueio, mas admitiu "recorrer a este tipo de medida por razões de segurança".

"São medidas temporárias. Assim que a ameaça for eliminada, tudo voltará ao normal".

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