Ninguém entrou ou saiu da zona rebelde de Aleppo após trégua russa

Alepo, Síria, 4 Nov 2016 (AFP) - Nenhum civil, nem combatente deixou nesta sexta-feira os bairros rebeldes do leste de Aleppo, sitiados pelas forças do governo sírio, durante a nova "pausa humanitária" decretada pela Rússia e que terminou ao anoitecer.

O exército sírio, apoiado pela aviação russa, lançou no dia 22 de setembro uma ampla ofensiva para reconquistar os bairros controlados pelos insurgentes, a leste de Aleppo, realizando intensos bombardeios durante quatro semanas na zona assediada pelas forças de Bashar al Assad.

Esta segunda "pausa humanitária" de 10 horas deveria supostamente permitir a evacuação de civis e feridos, e a saída dos combatentes rebeldes que desejassem através dos corredores humanitários instaurados, e terminou às 15h00 de Brasília.

"Nenhum civil, nem combatente abandonou os bairros do leste", informou à AFP o diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman. Um jornalista da AFP pôde constatar o mesmo. A calma reinava na cidade.

Há mais de três meses, forças do regime sitiam o setor onde vivem 250 mil pessoas, privadas de ajuda humanitária e ameaçadas pela escassez de alimentos.

A ONU tinha se descartado nesta sexta-feira e informado que não estava "implicada" neste "anúncio unilateral"; ainda assim, um grupo rebelde denunciou uma iniciativa que "não tem nenhum valor".

Rebeldes disparam foguetesAlém disso, os rebeldes sírios dispararam nesta sexta-feira sete foguetes em direção à estrada do Castello, um corredor de evacuação do norte de Aleppo destinado à saída de combatentes e civis, segundo a agência oficial Sana, que acusou os "grupos terroristas" de "impedir os civis de abandonar os bairros do leste".

Segundo a mesma fonte, um jornalista sírio foi ferido por estilhaços, enquanto o exército russo informou que dois de seus soldados ficaram levemente feridos por disparos rebeldes na estrada do Castello.

Em 22 de outubro, uma primeira trégua unilateral de três dias em Aleppo, instaurada pelo exército russo e sírio, expirou sem ter permitido a saída de civis e feridos, nem a retirada dos combatentes dos bairros do leste.

Yaser Al Yusef, líder do grupo rebelde Nuredin Zinki, disse que os insurgentes não estão envolvidos nesta trégua, que classificou de "instrumentalização política e midiática para aliviar as pressões internacionais sobre Moscou".

"As evacuações médicas só podem ocorrer se as partes em conflito adotarem todas as medidas para garantir um ambiente adequado, o que não foi feito", disse nesta sexta-feira David Swanson, porta-voz do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA).

Swanson se disse "muito, muito inquieto" com a situação humanitária em Aleppo.

Além disso, a OCHA informou que só "30 médicos ainda trabalham em seis hospitais parcialmente operacionais" no leste de Aleppo, "ou seja, um médico para 9.000 habitantes".

Estes bairros estavam desprovidos de alimentos até meados de novembro, segundo a OCHA, que reportou que "certos pacientes recorreram a bolsas de cadáveres" para se abrigar.

Calma relativaA trégua ocorreu em um momento em que os rebeldes tinham lançado uma ampla ofensiva da parte externa a oeste de Aleppo para tentar romper o assédio imposto pelo regime sírio contra os bairros da oposição há mais de três meses.

Dois civis morreram na sexta-feira em disparos de foguetes dos rebeldes sobre um bairro controlado pelo governo de Aleppo, segundo a TV estatal síria.

Mas, segundo o OSDH, na periferia oeste se registra uma calma relativa, apesar dos ataques aéreos intermitentes do governo.

Os combates perderam intensidade, constatou nesta sexta-feira um jornalista da AFP presente nos bairros do leste. Na véspera, ao menos 12 civis morreram e 200 ficaram feridos por disparos de foguetes de insurgentes contra as áreas do oeste da cidade, nas mãos do governo.

Os beligerantes querem controlar Aleppo, uma cidade chave para garantir o poder na região norte da Síria, país em que a guerra civil iniciada em 2011 deixou mais de 300.000 mortos.

A ofensiva sírio-russa, lançada em setembro, que causou a morte de mais de 500 pessoas e destruiu infraestruturas civis, suscitou muitas críticas de parte da comunidade internacional, que acusou Damasco e Moscou de "crimes de guerra".

Isto obrigou a Rússia a anunciar, em 18 de outubro, uma cessação temporária de seus bombardeios como "gesto de boa vontade".

Segundo a Anistia Internacional, uma trégua "não se substitui a um acesso humanitário sem obstáculos e imparcial". Este organismo exige "a proteção de civis a longo prazo".

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