Um ano após tragédia, Samarco reforça monitoramento de barragens em Minas

Mariana, Brasil, 4 Nov 2016 (AFP) - Rodeado por enormes telas e monitores, um grupo de especialistas vigia noite e dia qualquer risco de acidente nas barragens das explorações de minério de ferro da Samarco em Minas Gerais.

Prevenir, sem dúvida, é melhor do que remediar.

O problema é que essa impressionante estrutura tecnológica ainda não existia quando a Barragem de Fundão se rompeu, há um ano, provocando uma avalanche de lama e rejeitos de minério que matou 19 pessoas e se transformou na maior tragédia ambiental do país.

A Samarco, que hoje enfrenta na justiça demandas de indenizações bilionárias e acusações de homicídio qualificado, exibe com entusiasmo estes equipamentos de segurança ante um grupo de jornalistas, a poucos dias do 5 de novembro, o primeiro aniversário do desastre.

A sala de monitoramento, perto da cidade histórica de Mariana, é dominada por telas que cobrem toda a parede com imagens ao vivo das instalações das barragens da Samarco, onde se acumulam toneladas de rejeitos produzidos ao longo de décadas durante o processo de extração de minério de ferro.

Um sistema de radares detecta qualquer movimento na estrutura das barragens, e sete funcionários analisam a informação que chega aos seus computadores.

Em uma emergência, eles iriam até um painel com grandes botões vermelhos que ativariam sirenes de evacuação para trabalhadores e habitantes das comunidades próximas às barragens.

A sirene instalada em um dos municípios, o de Barra Longa, ainda não está conectada à sala de controle, mas por enquanto a Samarco recorre a outros métodos.

"Há caminhões com alto-falantes prontos para agir 24 horas por dia", explicou o coordenador de emergências, Flavio Thimotio.

Tarde demaisPromotores e sobreviventes da tragédia do ano passado acusam a Samarco, copropriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, de ter reagido tarde demais.

A Barragem de Fundão cedeu abruptamente, liberando 32 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos minerais vale abaixo, soterrando o distrito próximo de Bento Rodrigues antes de continuar um caminho de destruição até o oceano, a 640 quilômetros de distância.

José Nascimento de Jesus, um morador de Bento Rodrigues de 70 anos, diz que o único aviso que recebeu foi o barulho da inundação. "Como um avião", descreve.

"Eu fui o último a sair correndo. Em 10, 15 minutos, estava tudo acabado", conta.

Thimotio reconhece que o monitoramento das operações na época era mínimo em relação ao que é hoje.

"Foram instaladas depois do ocorrido, com a grande tarefa de vigilar a estabilidade" das barragens, afirma, apontando para as enormes telas.

O sistema de radar também é novo. E muitos dos instrumentos menos sofisticados que a Samarco tinha antes sequer estavam funcionando no dia da tragédia.

"Estavam desligados" para manutenção, afirma Thimotio.

Quanto às sirenes, elas simplesmente não existiam.

De quem é a culpa?O promotor de Justiça de Mariana, Guilherme de Sá Meneghin, disse à AFP que ele considera que a falta de equipamentos de alerta para casos de emergência "era o pior de tudo".

"As sirenes eram obrigatórias como sistema de alarme para a população próxima, e esse sistema não existia", afirma.

Ao apresentar as acusações de homicídio contra 21 pessoas, no mês passado, incluindo executivos da Samarco, Vale e BHP, os promotores alegaram que "a segurança tinha uma importância secundária" em relação aos lucros.

As três empresas rejeitam todas as acusações, insistindo em que o enfraquecimento despercebido e o eventual colapso da Barragem de Fundão foi um acidente insólito e impossível de ser parado.

"Foi sem precedentes", disse Thimotio, enfatizando que antes do desastre os instrumentos não deram "nenhum sinal" de que houvesse alguma coisa errada.

"A Barragem de Fundão era inspecionada regularmente, não só pelas autoridades, mas também por consultores internacionais independentes", disse a Samarco em comunicado.

"A segurança sempre foi uma prioridade na estratégia de gestão da Samarco, e a empresa reitera que nunca reduziu seus investimentos em segurança", acrescenta a nota.

Antonio Geraldo Santos, outro sobrevivente de Bento Rodrigues, zomba dessas afirmações.

"Não houve nenhum aviso, nada", disse o homem de 33 anos. "As pessoas simplesmente tiveram que correr para salvar suas vidas".

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