Hillary pode encerrar uma longa espera para as mulheres americanas

Washington, 5 Nov 2016 (AFP) - Estelle Liwbow Schultz nasceu antes de as mulheres americanas terem o direito de votar. Agora, aos 98 anos, votou antecipadamente, com orgulho, com a esperança de fazer história e ajudar a eleger a primeira mulher presidente dos Estados Unidos.

Schultz nasceu em junho de 1918, dois anos antes de as americanas terem o direito ao voto, mediante a 19º emenda da Constituição.

"Ver semelhante feito na minha vida é incrível", disse a professora aposentada que leva uma vida tranquila em Rockville, Maryland, periferia de Washington.

Depois de votar antecipadamente, Schultz ainda alimenta a esperança de acompanhar pessoalmente em janeiro a cerimônia de posse de sua candidata, Hillary Clinton, depois de uma sequência ininterrupta de 44 homens iniciada com George Washington em 1789.

Trata-se de uma longa caminhada, iniciada em 1872, com a campanha à Presidência de Victoria Woodhull, na época com 34 anos e filiada ao Partido dos Direitos Iguais. Os livros de história registram os votos obtidos por seus adversários homens, mas não os conquistados por ela.

Atualmente, Reino Unido, Alemanha, Croácia, Noruega, Chile e Coreia do Sul têm líderes mulheres. Brasil, Israel, Nicarágua, Panamá, Argentina, Costa Rica, Bolívia e Paquistão também foram liderados por elas.

"Estamos muito atrasados""Estamos muito atrasados em comparação com muitos outros países ao redor do mundo", disse Jeanne Zaino, professora de ciência política no Iona College, em Nova York.

Nos Estados Unidos, apenas duas mulheres fizeram parte de uma chapa presidencial em um dos principais partidos americanos: Sarah Palin foi candidata a vice do republicano John McCain em 2008, e Geraldine Ferraro acompanhou a chapa encabeçada pela democrata Walter Mondale em 1984. Os dois perderam.

Outras mulheres tentaram, mas não conseguiram sobreviver ao brutal moedor de carne que é o sistema das primárias partidárias nos dois grandes partidos. Outras se tornaram notas de rodapé em campanhas por partidos minoritários.

Desta vez, é o caso da médica Jill Stein, candidata à Presidência pelo Partido Verde, embora nas pesquisas raramente apareça como algo mais de 1% das intenções de voto.

"Quando não se apoia as mulheres de forma estrutural, o resultado é de mulheres que podem chegar ao topo, tanto na política como em outras áreas", afirmou Zaino.

Para Robert Shapiro, professor de ciência política na Universidade de Columbia, em Nova York, os sistemas parlamentares ou baseados em vários partidos são mais favoráveis às mulheres, pois empurram os partidos a estabelecer listas diversificadas de candidatos e isto permite que as mulheres alcancem posições de liderança.

Hillary se apresenta constantemente como mãe e avó, mas aos 69 anos, usou sua condição feminina esporadicamente com a pretensão de ser julgada por sua experiência.

"Tranquem-na!"Enquanto isso, o candidato republicano Donald Trump não demonstra ter problemas em usar estereótipos sobre mulheres e chegou a criticar Hillary por "não ter energia".

Seja por misoginia ou desprezo partidário - ou por uma mistura dos dois -, em praticamente todos os atos públicos de Trump, quando ele se refere a Hillary como uma mulher corrupta, seus seguidores respondem pedindo que ela seja presa. "Tranquem-na!" é o grito mais comum.

Durante recente discurso em Columbus, Ohio, Obama disse que Hillary "é continuamente tratada de forma diferente que qualquer outro candidato".

Em mensagem aos homens, Obama pediu que "olhem dentro de vocês mesmos e perguntem-se se têm problemas" com a candidatura de Hillary apenas porque ela é mulher.

"Quanto de tudo isto é apenas porque não estamos acostumados?", questionou o presidente.

"Estou orgulhosa de que uma mulher seja candidata a presidente", disse recentemente Hillary em um programa de rádio. "Mas há muito trabalho que quero fazer. E espero que as pessoas digam: 'veja, ela está fazendo as coisas'", acrescentou.

A ideia de conduzir pela primeira vez uma mulher à Presidência está, inclusive, gerando menos entusiasmo do que a eleição de oito anos atrás, quando o próprio Obama se tornou o primeiro negro a chegar à Casa Branca.

Segundo uma recente pesquisa, aproximadamente a metade dos americanos diz preferir que o feito histórico seja alcançado por outra mulher que não Hillary, que em termos de impopularidade só perde para Trump.

"Mas se ela for eleita, haverá muitos rostos chorando", disse Shapiro.

A advogada Moira Hahn, de 64 anos, deixou este sentimento em evidência. "Antes de morrer, se Deus quiser, quero ter uma mulher presidente. Sim, para nós é muito importante", disse.

Nancy Murphy, professora aposentada de 58 anos, disse à AFP que ter uma mulher presidente será "magnífico", antes de acrescentar: "Mas não sei como muita gente neste país se sentirá a respeito".

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