Brexit é presente que caiu do céu para humoristas britânicos

Londres, 6 Nov 2016 (AFP) - Divisivo, caótico e com implicações em quase todos os aspectos da vida nacional, o Brexit foi um presente que caiu do céu para os humoristas britânicos, que agora têm muito material de trabalho, e para um público desesperado para rir.

"Há um apetite voraz no Reino Unido para qualquer coisa relacionada ao Brexit, e há um grande apetite para a sátira", declarou Neil Rafferty, editor-chefe do popular site humorístico The Daily Mash.

"É um grande tema. Também há um número enorme de personagens extravagantes envolvidos. Há algumas visões muito extremas, que são ótimas para os humoristas", explicou Rafferty.

Os britânicos têm uma longa tradição de se voltar para o humor em tempos difíceis, e a votação no referendo de junho para deixar a União Europeia tem inspirado comediantes por todo o país - mesmo que a maioria deles tenha sido contrária à decisão.

"Quando se trata de escrever piadas, esse resultado do referendo é melhor", disse o comediante Al Murray, que adota a personalidade de um proprietário xenófobo de um pub, ao jornal The Guardian.

A revista de humor Private Eye está desfrutando de vendas recorde de 230.000 cópias a cada quinzena, enquanto o Twitter e a Internet estão repletos de piadas relacionadas ao Brexit.

"Bem, eu ferrei tudo, não é?", afirma a manchete de uma matéria do Daily Mash sobre David Cameron, que renunciou ao cargo de primeiro-ministro depois de sua campanha para que a Grã-Bretanha permanecesse na UE.

Outra brincou com a insistência de que a Grã-Bretanha estará melhor fora do mercado europeu, com a manchete: "Austrália é parceiro comercial ideal, dizem britânicos felizes por esperar três meses pelas encomendas".

A comédia também pode ajudar os britânicos a lidar com algumas das questões mais sombrias levantadas pelo Brexit, incluindo relatos de um aumento nos crimes de ódio depois de uma campanha de referendo dominada pela imigração.

"O Brexit levantou muitas tensões, algumas delas raciais, muitas delas políticas", afirma Steve Bennett, editor da revista Chortle, dedicada à indústria do humor.

"Acho que a comédia é uma ferramenta importante em suavizar isso", explica.

- 'Melhor do que chorar' -Em uma noite de sexta-feira no Comedy Cafe, no leste de Londres, um comediante do gênero "stand-up" perguntou à plateia se alguém gostava do ministro das Relações Exteriores Boris Johnson, um dos principais defensores do Brexit.

Um homem que se apresenta como turco levanta a mão timidamente e se justifica afirmando que Johnson tem ancestrais turcos, abrindo caminho para que o comediante o ataque com comentários mordazes, entre risadas dos espectadores.

A cena serve para constatar algo: a maioria dos comediantes estava entre os 48% dos eleitores que se opuseram ao Brexit no referendo.

Mas nem todos, como Geoff Norcott, um dos humoristas em cartaz naquela noite em Shoreditch.

"Logo após a votação acontecer, muitos dos meus amigos estavam dizendo 'bem, muito obrigado, defensores da saída, agora vamos ter um futuro sem dinheiro ou direitos humanos'", disse Norcott.

"E eu estava pensando - não, estamos deixando a UE, não nos juntando à Coreia do Norte. Vamos diminuir a retórica pelo menos um pouco. Mas é essa histeria que torna isso engraçado".

"Vamos rir até sermos realmente pobres. E então vamos rir por diferentes razões, porque rir é melhor do que chorar", brincou Norcott.

- 'Argulfoop significa Argulfoop' -A primeira-ministra, Theresa May, se recusou reiteradamente a esboçar sua estratégia antes das negociações com a UE previstas para o início do próximo ano, dizendo apenas que "Brexit significa Brexit".

Esta frase tem sido amplamente ridicularizada por ser sem sentido, enquanto trechos de vídeos de vários políticos dizendo "breakfast" (café da manhã, em inglês), ao invés de "Brexit", trouxeram um aspecto surreal às perspectivas de futuro da Grã-Bretanha.

Mas para alguns humoristas, como o cantor e compositor Mitch Benn, no entanto, todas estas piadas não conseguem disfarçar sua revolta em relação à situação.

"Dizer que 'Brexit significa Brexit' é uma declaração sem sentido, porque é como dizer, 'Argulfoop significa Argulfoop'", afirmou à AFP.

"É uma palavra que acabamos de inventar e você diz que significa o que diz que significa. Não temos ideia de onde estamos ou o que estamos fazendo", completou.

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