Na oprimida Flint, o voto por um futuro melhor

Flint, Estados Unidos, 9 Nov 2016 (AFP) - Da visão apocalíptica dos Estados Unidos pintada pelo magnata Donald Trump, Flint, no estado de Michigan, pode ser o triste cartão postal. Recentemente, ganhou as manchetes dos jornais do país por um escândalo de água contaminada por chumbo, resultado direto de má gestão.

Apesar da pobreza e da desindustrialização, sua população de maioria negra vai às urnas, mas prefere a esperança à fatalidade.

"É difícil aqui", lamenta Dawn Daniels, de 55 anos, um operário da indústria automotora da cidade.

"Muito aqui foi abandonado", disse ela, falando sobre essa cidade de contrastes, onde rua após rua, casas de classe média dão lugar àquelas abandonadas, ou destruídas.

Na saída da igreja batista Grace Emmanuel, onde o ex-presidente Bill Clinton fez no domingo sua última defesa em favor de sua mulher, Hillary, Daniels explica por que escolheu votar na democrata.

"Tem empatia pelos humildes e parece sinceramente estar preocupada com eles", afirmou Daniels.

'Espiral lenta e descendente'Quando a General Motors começou a fabricar automóveis, começou em Flint. No auge, nos anos 1970, a GM empregava 80.000 trabalhadores na cidade, segundo a Automotive News.

Embora a GM continue sendo o principal empregador em Flint, décadas depois, sua força de trabalho se reduziu a uma fração muito menor do que naqueles anos.

"Desde então, foi uma espiral muito lenta e descendente", comentou Daniels.

Hoje há apenas 12.300 pessoas empregadas na indústria manufatureira em Flint, segundo a Agência de Estatísticas Trabalhistas.

"Éramos uma cidade deprimida", afirma Deborah Battle, de 67, uma trabalhadora aposentada da GM que sempre viveu em Flint.

"E depois veio essa crise da água, que não ajudou nada", lamentou.

A "crise da água" começou há dois anos, quando o governador republicano de Michigan, Rick Snyder, mudou a fonte de água potável para economizar dinheiro.

A água passou então a ser distribuída por velhos canos oxidados, e milhares de crianças foram expostas a toxinas. Em algumas casas, a água saía marrom das torneiras.

Alguns funcionários continuam recomendando o uso de filtros, ou mesmo que se consuma apenas água engarrafada. Uma investigação em curso apresentou acusações contra nove funcionários e ex-funcionários.

"Achamos que o Partido Republicano é responsável pelo que aconteceu em Flint", alega David Kronner, um aposentado que vive nessa cidade há 45 anos. Disse ter votado em Hillary por causa de sua forte rejeição a Trump.

Identificado com TrumpMas o empreiteiro David Arntzen, de 29, que se autodefine como democrata, diz ter-se identificado com o magnata do setor imobiliário.

"Acho que ambos os partidos fracassaram nos anos que governaram", afirma.

"Em linhas gerais, (Trump) quer devolver o poder ao povo (e) eu me identifico com isso", acrescenta.

Para a também ex-funcionária da GM, Sandra Wynn, de 58, Trump não é boa notícia.

"Quando diz que quer que os Estados Unidos voltem a ser grande, me assusta, porque a única coisa em que consigo pensar é em navios com escravos e cordas no pescoço", diz Wynn, que é negra.

Ela também votou em Hillary, como fez Deborah Battle. Ambas esperam resultados de um possível governo democrata.

"Queremos alguém (...) na Casa Branca que saiba que estamos aqui e que precisamos de ajuda", desabafa.

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