Donald Trump surpreende e é eleito presidente dos Estados Unidos

Washington, 9 Nov 2016 (AFP) - O magnata Donald Trump, mesmo sem nenhuma experiência política, surpreendeu e venceu a eleição presidencial dos Estados Unidos, superando a democrata Hillary Clinton, um terremoto político que leva o país e o mundo a um período de muitas incertezas.

"Serei o presidente de todos os americanos", anunciou Trump exultante no discurso da vitória, ao lado da esposa, Melania Trump, e de seus filhos.

"Isto foi muito duro", completou, ao agradecer à família.

"Chegou o momento de os Estados Unidos fecharem as feridas da divisão, devemos nos unir: aos republicanos, democratas e independentes desta nação afirmo que é hora de união", disse Trump.

Em uma mensagem à comunidade internacional, que acompanhou com apreensão a eleição americana, Trump disse: "Vamos tratar a todos com justiça. Todos os povos e todas as nações. Buscaremos terreno comum e não hostilidade; associação e não conflito".

O presidente eleito americano afirmou que a adversária, Hillary Clinton, telefonou para felicitá-lo por sua vitória. Trump disse que os Estados Unidos têm uma "dívida de gratidão" para com Hillary.

A candidata democrata, em sua primeira reação após a derrota, se ofereceu para trabalhar com adversário, a quem desejou sucesso.

"Espero que ele tenha sucesso como presidente de todos os americanos", declarou, ressaltando, no entanto, que a eleição demonstrou que os Estados Unidos "estão mais divididos do que pensávamos".

O presidente Barack Obama, por sua vez, declarou ter se sentido animado com o tom conciliador do discurso de Trump.

O presidente explicou ter ordenado à sua equipe de colaboradores que trabalhem duro para garantir uma transição de poder sem contratempos porque "todo mundo deseja seu êxito para unir e liderar o país".

"Antes de tudo, somos americanos. Antes de tudo, somos patriotas. Todos queremos o melhor para este país", assegurou Obama falando no jardim da Casa Branca.

"É o que ouvi do discurso de Trump. É o que ouvi quando falei pessoalmente com ele. Eu me senti animado com isso", afirmou ainda.

Além de desejar sucesso ao recém-eleito presidente, Obama também elogiou a candidatura histórica de sua ex-secretária de Estado.

Mudança radicalOito anos depois da eleição de Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, o bilionário de 70 anos, conhecido por sua rede de hotéis cassinos, venceu nos estados-chave da Flórida, Pensilvânia e Ohio e soma pelo menos 290 dos 270 votos que necessitava no colégio eleitoral para chegar à Casa Branca.

Hillary Clinton apenas 218, um duro golpe para a ex-primeira-dama que sonhava em se tornar a primeira mulher presidente dos Estados Unidos e uma derrota para Obama, que se dedicou a apoiar a candidata de seu partido.

O medo de uma vitória de Trump, que chamou os mexicanos de "estupradores" e "narcotraficantes" e que prometeu construir um muro nos 3.200 km de fronteira com o México, mobilizou muitos latinos, a principal minoria do país, mas sem força suficiente para dar o triunfo a Hillary.

Os mercados financeiros mundiais, que tinham clara preferência por Hillary Clinton, reagiram temerosos, mas, em sua maioria, se recuperaram.

DivisõesPoucas vezes nas últimas décadas uma eleição presidencial americana foi disputada por dois candidatos tão antagônicos, com visões tão distintas.

Contudo, os resultados mostram que um importante setor de hispânicos votaram em Trump.

Com seu discurso anti-imigração, impulsivo e corrosivo, denunciado por várias mulheres que afirmaram ter sido apalpadas por ele, Trump marcou para sempre um estilo de fazer campanha política. A liderança do Partido Republicano praticamente deu as costas a ele.

"Votei em Trump e contra o sistema. Trump diz muitas bobagens porque ele não é um político, não está adestrado. Mas o mais importante para o país é o comércio, as relações internacionais e a economia. E as pessoas estão quebradas, precisam de uma mudança", disse Abteen Daziri, de 38 anos e de origem iraniana.

Hilarry é uma figura política há 25 anos, detestada por metade dos americanos, que duvidam de sua honestidade. Esposa do ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), foi primeira-dama, senadora e depois secretária de Estado do presidente Barack Obama.

A trajetória de Hillary Clinton como candidata democrata rumo à Casa Branca foi ofuscada pela investigação do FBI contra ela pelos e-mails enviados a partir de um servidor privado no momento em que era secretária de Estado.

"Estou devastada, perdi a fé em meus compatriotas, não sei o que nos espera no futuro, me sinto perdida", afirmou Kate Kalmyka, uma advogada de 36 anos que acompanhava, indignada, os resultados em um bar de Nova York.

IncertezasOs desafios a partir de agora são enormes e reina a incerteza no no cenário político e diplomático, como as relações com a Rússia ou o envolvimento dos Estados Unidos no conflito da Síria.

O presidente russo, Vladimir Putin, foi o primeiro a felicitar Trump por sua vitória, com a qual espera uma melhora nas relações Rússia-Estados Unidos.

O magnata já elogiou Putin e defendeu laços mais próximos com Moscou.

Os dirigentes mundiais enviaram mensagens parabenizando sua eleição, mas com um tom prudente, principalmente a União Europeia, que já anunciou que os chanceleres do bloco realizarão uma reunião especial no domingo para discutir a vitória de Trump.

Em sua maioria, as mensagens de parabéns também sugeriam um trabalho conjunto em prol de preservar acordos já assinados, como o nuclear com o Irã e o que abrange as mudanças climáticas.

Israel, por sua vez, mostrou-se empolgado com a eleição de Trump, apostando que a criação de um Estado palestino é um tema que será enterrado de vez.

No âmbito doméstico, há dúvidas em torno das reformas no sistema de saúde, o chamado Obamacare.

Na economia, Trump terá que lidar com o Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP) ou o TPP.

Outra incógnita diz respeito à normalização das relações com Cuba, iniciada pelo democrata Barack Obama.

Nos últimos dias, ele prometeu que "suspenderá o programa de refugiados sírios" para impedir a entrada de "terroristas islâmicos", mas não voltou a mencionar a ideia de deportar os 11 milhões de imigrantes sem documentos.

Maioria no CongressoOs republicanos conquistaram a maioria no Senado nas eleições de terça-feira e continuarão controlando o conjunto do Congresso americano, algo muito importante para o presidente eleito Donald Trump.

Controlando a Casa Branca e o poder Legislativo, os republicanos terão a capacidade de anular as reformas do presidente Barack Obama e principalmente seu controverso programa de seguro-saúde batizado de "Obamacare".

O controle do Senado, que se soma ao da Câmara de Representantes, também lhes permitirá controlar o processo indicação dos funcionários governamentais de mais alto escalão e dos juízes da Suprema Corte.

O Senado, um terço do qual foi renovado na terça-feira (34 membros), havia oscilado para o campo republicano em 2014, limitando consideravelmente a margem de manobra do presidente Obama.

O líder da Câmara de Representantes, o republicano Paul Ryan - que durante a campanha declarou não apoiar Trump como candidato - anunciou nesta quarta que permanecerá no cargo e que esperar trabalhar junto ao presidente recém-eleito.

"Tivemos uma ótima conversa sobre como trabalharemos juntos nessa transição", declarou Ryan.

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