Diálogo na Venezuela reinicia sob ameaça de fracasso

Caracas, 11 Nov 2016 (AFP) - O governo de Nicolás Maduro e a oposição retomaram nesta sexta-feira, a pedido do Vaticano, um processo de diálogo para resolver a profunda crise na Venezuela, em um campo minado onde a continuidade do chavismo no poder está em jogo.

Delegados do governo e da Mesa da Unidade Democrática (MUD) celebraram sua segunda reunião, após o início do diálogo em 30 de outubro, para avaliar o progresso em questões como direitos humanos, situação econômica e justiça, abordadas em mesas separadas.

Maduro anunciou que o governo entregará ao final da tarde um documento com sua visão de uma saída para a crise e pediu que a oposição não se levante da mesa.

"Quero que estejam sentados no processo de diálogo que se inicia, é preciso ter paciência", disse o presidente em seu programa de rádio dedicado à salsa.

Se as negociações não tiverem êxito, o conflito poderia escalar no curto prazo porque o diálogo foi aberto em um momento de grande tensão pela suspensão, em 20 de outubro, de um referendo com o qual a MUD procurava revogar o mandato de Maduro, que termina em janeiro de 2019.

A MUD ameaçou deixar a mesa de negociações e retomar sua ofensiva, depois que, à espera de gestos recíprocos, suspendeu um julgamento sobre a responsabilidade de Maduro na crise e uma passeata ao palácio presidencial de Miraflores.

Maduro se vê concluindo o mandato em janeiro de 2019, ao ressaltar o que o governo espera do diálogo: "que haja respeito à posição contrária, que possamos navegar as águas do que resta do ano de 2016, dos anos de 2017 e 2018".

Assistirão ao encontro o enviado do papa Francisco, monsenhor Claudio Maria Celli, e os ex-chefes de governo José Luis Rodríguez Zapatero (Espanha), Leonel Fernández (República Dominicana) e Martín Torrijos (Panamá), bem como o ex-presidente colombiano, Ernesto Samper, secretário-geral da Unasul.

Crise econômica, a obsessãoA oposição quer evitar que o governo use o diálogo para ganhar tempo e exige resultados concretos, após uma trégua de onze dias em sua ofensiva contra Maduro.

"A Venezuela é uma panela de pressão e a válvula, que era o revogatório, foi soldada. A MUD procura um solução eleitoral para a crise. Ou nos devolvem o referendo ou selamo um acordo sobre eleições antecipadas", declarou o porta-voz da aliança de oposição, Jesus Torrealba.

No entanto, o Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) negou nesta sexta uma ação judicial para reativar a consulta, declarando "inadmissível" um recurso apresentado pela MUD.

O governo, que convocou a imprensa às 22H00 GMT (20h00 de Brasília) para relatar os progressos no diálogo, disse não aceitar qualquer ultimato e não prevê a realização de eleições antecipadas.

"Eu não estou obcecado com as eleições, isso será decidido pelo povo em 2018. Resolver a questão econômica, essa é a minha obsessão", disse Maduro na quinta-feira.

Mas para a oposição uma mudança de governo é a única maneira de sair da devastação econômica, atingida pela falta de alimentos e medicamentos, e uma inflação que este ano será de cerca de 475% de acordo com o FMI.

"Estamos céticos sobre as reações do governo. Os venezuelanos precisam de sinais de mudança. Estamos no limite, porque a situação econômica é uma bomba que pode explodir", disse o ex-candidato presidencial Henrique Capriles.

Negociar o impossívelOs analistas estimam ser improvável que o governo aceite reativar o referendo ou realizar eleições antecipadas. De acordo com Luis Vicente Leon, presidente da Datanalisis, isso significaria a saída do chavismo do poder, dada a impopularidade de 76,4%, segundo a empresa Venebarómetro.

"Parece que a tendência da oposição é negociar o impossível", disse à AFP o cientista político Nícmer Evans, um forte crítico de Maduro.

Para Evans, a MUD cometeu o erro de paralisar, antes de obter resultados do diálogo, a mobilização nas ruas, ficando sem o mecanismo de pressão.

Além do fim dos protestos, a pressão internacional pesa em favor do diálogo, incluindo dos Estados Unidos. Mas a eleição de Donald Trump abre incertezas na relação com a Venezuela e a atitude para com o processo de negociações.

A MUD exige a libertação de prisioneiros políticos e a abertura de "um canal humanitário" de fornecimento de alimentos e medicamentos, além da substituição das autoridades eleitorais e judiciárias - acusadas de trabalhar para o oficialismo.

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