Estado Islâmico isola Raqa do mundo ante avanço de ofensiva curdo-árabe

Beirute, 16 Nov 2016 (AFP) - Com invasões a cibercafés, proibição de saída da cidade e a abertura de mais postos de controle, os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) tentam isolar do mundo exterior a cidade de Raqa para esconder o avanço da aliança curdo-árabe em direção a sua principal fortaleza na Síria.

Os mais de 300.000 habitantes de Raqa já tinham um acesso restrito à informação desde a tomada do controle desta cidade do nordeste do país pelo EI em janeiro de 2014.

Mas o manto de silêncio pesa mais desde 5 de novembro, quando teve início a ofensiva das Forças Democráticas da Síria (FDS), apoiadas por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

"Por causa das duras restrições impostas pelo Daesh (sigla em árabe do EI) à internet e às antenas de satélite, é muito difícil saber o que realmente acontece na batalha por Raqa", afirma Musa, de 31 anos.

A AFP entrou em contato com este habitante e outras pessoas que usam pseudônimos para evitarem serem descobertas por intermédio da organização "Raqqa is being Slaughtered Silently" (RBSS - Raqa é massacrada em silêncio).

Esta organização é uma das poucas a manter um vínculo entre a cidade e o mundo exterior, especialmente com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

RBSS é um grupo de ativistas criado em segredo em abril de 2014. Ele documenta as atrocidades cometidas pelo EI, desafiando a campanha de terror contra seus membros, que os jihadistas assassinam tanto em Raqa quanto no exterior.

Se falarem o que acontece na cidade, os habitantes podem ser detidos ou mesmo mortos. "O único direito é contar a propaganda do EI sobre suas supostas vitórias e repetir que Raqa é invencível", diz Musa.

O EI faz circular informações que lhe são favoráveis, tais como explosões de carros-bomba e ataques suicidas que, segundo afirma, provoca a morte de muitos curdos.

Para conhecer a realidade, "contamos com pessoas com acesso à informação por internet, mas é muito difícil e perigoso", acrescenta Musa.

'Extrema prudência'Nos últimos dois anos, o EI restringiu consideravelmente o acesso à internet, proibindo roteadores particulares e deixando aberto apenas um punhado de cibercafés sob estreita vigilância de homens de confiança.

"Eu navego na internet com extrema cautela", diz Ahmad, um ex-ativista de 22 anos. O EI "fechou vários cibercafés" a partir de novembro e "novos postos de controle foram estabelecidos", acrescenta.

Além disso, de acordo com Musa, nas últimas semanas, combatentes chegaram de outras regiões. "Nós vemos pessoas novas, o que demonstra que os membros do EI viajam entre as diferentes frentes da província de Aleppo, de Raqa e até Mossul" no Iraque.

Muitos combatentes estrangeiros vivem com suas famílias em Raqa, que se tornou a capital de fato do "califado" proclamado pelos extremistas islâmicos na Síria e no Iraque.

Há vários meses, "é impossível sair" da cidade, afirma Abu Mohammed, um militante da Raqa is Being Slaughtered Silently, que afirma ter conversado com muitos residentes que querem deixar a localidade.

"Mas os extremistas descobriram seus planos e eles foram detidos. Mataram aqueles que queriam ajudá-los", afirma.

Abu Mohamed cita o exemplo de duas famílias que tentaram fugir com seus filhos para escapar dos bombardeios aéreos e da paranoia crescente do EI. Mas, após serem presos, tiveram seus bens confiscados.

A batalha de Raqa se anuncia difícil, segundo especialistas. As FDS preveem duas fases: primeiro cercar a cidade e depois atacá-la.

Musa está impaciente: "A libertação é o sonho de todos os habitantes".

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