Aleppo, símbolo da impotência da comunidade internacional

Beirute, 22 Nov 2016 (AFP) - A comunidade internacional reage com impotência e resignação à ofensiva contra os bairros rebeldes de Aleppo, o que poderia terminar em uma vitória do governo sírio e de seus aliados, como a Rússia.

A queda de Aleppo é inevitável?Muitos especialistas consideram que sim, uma semana depois do lançamento da nova campanha das forças do governo.

"Nesta fase não se pode fazer grande coisa para evitar a queda de Aleppo", estima Emile Hokayem, do International Institute for Strategic Studies. "Já não se pode enviar armas, todas as estradas de abastecimento estão fechadas e ninguém realizará uma contraofensiva aérea por conta do custo e dos riscos".

Durante os últimos dias, as forças do governo ameaçaram a cidade com a intenção de cortar o contato entre os diferentes bairros controlados pelos insurgentes, que tentaram, em vão, por duas vezes acabar com o cerco.

Os responsáveis do Pentágono são prudentes e reconhecem que há dois meses acreditaram que esses bairros cairiam logo. A "resistência" dos rebeldes e da população surpreendeu.

Para eles, o fato de o governo se concentrar na destruição de hospitais e de infraestruturas civis é um sinal do enfraquecimento de suas tropas terrestres diante dos rebeldes.

Hokayem adverte que uma queda do leste de Aleppo não supõe obrigatoriamente "sua pacificação".

Por que os países ocidentais não fazem nada?"Poucas vezes na história dos últimos 50 anos, talvez com a exceção de Ruanda, viu-se a chamada 'comunidade internacional' assistir como espectadora uma crise humanitária de tal envergadura", afirma Karim Bitar, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris). "A resignação ganhou e Aleppo assina o atestado de óbito de qualquer esperança de governança coletiva", segundo ele.

Os países ocidentais parecem carecer de soluções, já que há cinco anos todas as negociações entre americanos e russos, que apóiam respectivamente a oposição e o governo, junto com todos os planos da ONU fracassaram.

"Houve um momento em que havia a possibilidade de fazer algo por Aleppo", considera Hokayem. "Agora é muito tarde (...) os atores-chave seguem adiando as decisões difíceis até que não haja mais opções viáveis".

Segundo ele, os países ocidentais que apoiam a oposição subestimaram a campanha militar lançada pela Rússia em 30 de setembro de 2015 para ajudar o governo de Bashar al-Assad. E com os Estados Unidos em plena transição política, "nem os britânicos nem os franceses podem fazer grande coisa", segundo o especialista.

Aleppo é importante para Washington?Para os comandos militares americanos, uma queda dos bairros rebeldes de Aleppo não teria consequências diretas. Repetem que a única coisa que os preocupa é combater o grupo Estado Islâmico (EI) - missão confiada a eles pelo governo de Barack Obama.

E não há sinais de que os Estados Unidos irão mudar de política nas próximas semanas.

Os Estados Unidos escolheram Donald Trump como presidente, que se declarou partidário de uma política menos hostil contra Bashar al-Assad. "As discussões sobre a Síria entre Moscou e Trump já começaram", afirma Daniel L. Byman, do Instituto Brookings.

Entretanto, as forças do governo "estão animadas com a vitória de Donald Trump e com as perspectivas de uma aproximação russo-americana, que se concentraria unicamente na luta contra o Daesh" (acrônimo árabe do EI), afirma Bitar.

Ainda é possível ajudar os civis?Essa é a prioridade da ONU, cujos responsáveis não param de alertar sobre "a catástrofe humanitária" que se aproxima caso nada seja feito para impedi-la, segundo o emissário para a Síria, Staffan de Mistura.

Por enquanto a ONU não conseguiu fazer chegar uma ajuda humanitária aos 250.000 habitantes do leste de Aleppo, sitiados desde julho. O governo tampouco permitiu o acesso de médicos, apesar de "não existir atualmente nenhum hospital em funcionamento", segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para o governo, "a estratégia do cerco consiste essencialmente em criar suficiente sofrimento e miséria para que os civis se voltem contra seus defensores", afirma Hokayem.

Os habitantes parecem ter a opção de ficar entre a morte ou se renderem, o que recusaram até agora.

Mas a piora da situação poderia mudar as coisas, com a chance de "repetir" o caso de Daraya, uma cidade próxima a Damasco que aguentou cinco anos "antes de se ver finalmente obrigada a aceitar a evacuação", segundo uma fonte europeia.

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