Censura ofusca Festival de Cinema de Havana

Havana, 8 dez 2016 (AFP) - O Festival de Cinema de Havana começa nesta quinta-feira com a polêmica proibição do filme de ficção sobre a intolerância da revolução cubana com os artistas gays.

"Santa y Andrés", segundo longa-metragem do cubano Carlos Lechuga, após o sucesso de "Melaza" (2012), conta a vida de um poeta marginalizado por ser homossexual.

O Instituto de Cinema (Icaic), organizador do famoso festival, tirou o filme da programação. Seu presidente, Roberto Smith, alegou uma "questão de princípios" para impedir a projeção do filme.

Essa história de ficção foi inspirada no poeta Delfín Prats (71), além de outros intelectuais homossexuais, como Virgilio Piñera (1912-1979), que foram privados de acesso a editoras, teatro, aulas e galerias durante o chamado "quinquênio cinza" (1971-76).

"O filme apresenta uma imagem da revolução que a reduz a uma expressão de intolerância e violência contra a cultura, faz um uso irresponsável de nossos símbolos pátrios e referências inaceitáveis ao companheiro Fidel" (Castro), enumera Smith em uma carta pública.

Há três anos cineastas cubanos pedem ao governo de Raúl Castro o reconhecimento legal do criador audiovisual, a legalização de pequenas produtoras privadas até agora apenas toleradas, uma lei de cinema e a reformulação do papel do Icaic.

Mas as autoridades ainda não se pronunciaram.

"Santa y Andrés" foi realizado com financiamento do programa multinacional Ibermedia, além de capital do próprio diretor.

O filme faz parte do chamado cinema independente, que ganha cada vez mais terreno na ilha.

"Quem me conhece sabe que sou um patriota, vivo em Cuba e trabalho em Cuba", escreveu no Facebook Lechuga, de 33 anos, que não quis dar declarações à AFP até que o festival termine.

A decisão provocou grande polêmica na publicação digital OnCuba Magazine, provocando um debate nas redes sociais - de um lado Smith e o vice-ministro de Cultura, Fernando Rojas, e do outro cineastas e críticos.

Há dois danos também foi censurado o filme "Regreso a Ítaca", do francês Laurent Cantet, rodado em Cuba com atores cubanos e roteiro do escritor Leonardo Padura.

Banquete visualMais de meio milhão de espectadores lotam a cada ano os cinemas da ilha durante os dez dias do festival, que na edição deste ano ocorre entre 8 e 18 de dezembro.

Sem glamour, luzes ou paetês, o Festival de Havana é um autêntico banquete para os cinéfilos, pois além dos filmes em competição (111 este ano), são exibidos filmes de grande circuito e de arquivo. Em 2016 está prevista a projeção de um total de 437 filmes.

O festival concede os prêmios Coral em longa, média e curta-metragens, filmes de estreia, documentários e filmes de animação.

Na categoria longa-metragem de ficção, o ponto forte do evento, concorrem 18 filmes da Argentina (3), Brasil (3), Cuba (3), Chile (4), Colômbia (2), México (2) e Trinidad e Tobago (1).

Os brasileiros na competição são "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho; "Mãe só há uma", de Lucia Muylaert, e "A cidade do futuro", de Marília Hughes e Cláudio Marques.

O filme argentino "El ciudadano ilustre", dirigido por Gastón Duprat e Mariano Cohn, será o encarregado de abrir essa 38ª edição do festival na noite dessa quinta-feira. No ano passado o vencedor foi "El Club", do chileno Pablo Larraín.

Os cineastas americanos Oliver Stone e Brian de Palma são os convidados de luxo dessa edição. Stone vai apresentar "Snowden" e de Palma dará um workshop sobre cinema.

Apesar de ser um festival do chamado novo cinema latino-americano, o evento será marcado nesse ano por uma forte presença norte-americana, um ano e meio depois que os dois países restabeleceram relações.

"Primeiro teremos dois dos grandes filmes produzidos esse ano ali (nos Estados Unidos): 'Jackie'", sobre a esposa do ex-presidente John F. Kennedy, dirigida por Larraín, e a comédia musical 'La La Land'", do americano Damien Chazelle, disse o diretor do festival, Iván Giroud.

O festival vai homenagear o recém falecido líder Fidel Castro, um dos apoiadores do evento, com a projeção especial do filme "La batalla de Jigüe", de Rogelio París, para "relembra a luta que ele liderou", segundo os organizadores.

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