Funerárias na linha de frente da guerras às drogas nas Filipinas

Manila, 9 dez 2016 (AFP) - Alejandro Ormeneta trabalha em uma funerária de Manila, uma cidade na linha de frente da guerra contra as drogas que ensanguenta as Filipinas. Ele nunca teve tanto trabalho como nos últimos cinco meses, mas pede apenas uma coisa: que as chacinas acabem.

Todas as noites, Ormeneta recolhe com seus colegas uma média de cinco corpos, em sua maioria nos bairros pobres dos subúrbios. Uma rotina macabra que o faz questionar a campanha de repressão contra o crime empreendida pelo presidente Rodrigo Duterte.

"Isso não deveria acontecer, são pessoas, não animais", declara à AFP o funcionário de 47 anos que trabalha para a funerária Veronica Memorial Chapels.

Ele lembra ter extraído três pregos grandes do crânio de um suposto narcotraficante. "Creio que ainda estava vivo quando enfiaram os pregos em sua cabeça. Deve ter doído muito".

Ormeneta atendeu recentemente um bairro onde um grupo mascarado matou um homem. A vítima cheirava a álcool. A irmã do homem gritou quando os policiais viraram o seu corpo, baleado, em meio a uma poça de sangue.

A polícia declarou à AFP que Danilo Bolante, de 47 anos, vendia 'shabu', um tipo de metanfetamina a bom preço, substância a qual o presidente Duterte acusa de destruir a sociedade.

Porém, Chona Balina afirma que seu irmão não se dedicava mais do tráfico de drogas e que alguém o denunciou à polícia após a campanha, conhecida como Tokhang, lançada por Duterte com intuito de fazer os traficantes e consumidores largarem suas atividades criminais ou modificarem seus hábitos.

"Para que lançar a Tokhang se é isso que fazem com as pessoas que mudam?", questiona.

'Massacre'Rodrigo Duterte venceu as eleições anunciando uma guerra contra as drogas, que causaria dezenas de milhares de vítimas. Durante a campanha brincou dizendo que as agências funerárias não parariam de trabalhar.

Cumpriu sua palavra. A polícia matou mais de 2.000 pessoas e outras 3.000 morreram nas mãos de desconhecidos, o que os faz temer assassinatos extrajudiciais em grande escala.

As coisas não parecem que irão mudar. Duterte declarou recentemente que se sentia "feliz em massacrar" os três milhões de dependentes químicos.

Essa política suscita fortes críticas, tanto no arquipélago como no exterior, mas as pesquisas mostram que os filipinos apoiam a cruzada presidencial.

Ainda que estejam muito ocupados, os sepultadores não cobram obrigatoriamente pelo pagamento do funeral, pois muitas famílias não têm condições pagá-lo.

"Não sei como vamos fazer porque estou desempregada", disse Balina, após ter recebido da funerária Veronica uma oferta de 62.000 pesos (1.160 euros, ou 1.220 dólares) pelo embalsamamento, o caixão e o funeral de seu irmão.

As tarifas oscilam entre os 18.000 e os 400.000 pesos, conta Rico Teodocio, diretor da empresa. Costuma oferecer descontos e explica que as famílias mendigam às vezes aos cemitérios para conseguir objetos funerários gratuitos. "Não sei se patético é a palavra correta perante a lástima. Nós também sofremos porque aplicamos preços baixos".

Veronica, como outras empresas funerárias visitadas pela AFP, informa que algumas famílias não reclamam os corpos porque são muito pobres ou têm medo.

SubornosAguardam dois ou três meses e logo os sepultadores os enterram de graça.

"É triste. Morrem e ninguém vem buscá-los", disse Ormeneta, mostrando os cadáveres do necrotério.

Seu setor não se salva da corrupção: alguns policiais exigem um pagamento em dinheiro para informar às empresas dos falecimentos.

Duterte também brincou a respeito disso durante a campanha. "Esses policiais não tem escrúpulos. Chamam as agências funerárias para avisá-las de que 'há um corpo'". Passarei amanhã para cobrar minha comissão".

Uma prática que vem de muito tempo e que no final das contas piora os custos das famílias, explicam vários sepultadores à AFP que pedem anonimato. "O que podemos fazer? Temos que adicionar à conta".

Para alguns funcionários é uma profissão como qualquer outra, mas para Ormeneta, um católico com quatro filhos, é muito difícil.

Para ele, os pequenos traficantes não merecem a morte. "São vítimas da droga. Tiveram que ganhar a vida para não passar fome, para dar o melhor a seus filhos. Teriam que ter dado uma oportunidade a eles. Por acaso não é isso que diz a bíblia? Não matarás o próximo!".

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