Impeachment de presidente vira reality show na Coreia do Sul

Seul, 9 dez 2016 (AFP) - Os telespectadores coreanos prendem a respiração enquanto acompanham as audiências da investigação da comissão parlamentar que analisou a destituição da presidente, um programa de reality show pelo qual passaram executivos, parlamentares com muita lábia e até um ex-gigolô.

E os milhões de telespectadores não são uma audiência passiva, já que muitos participam enviando mensagens de texto à comissão para apoiar o trabalho da investigação.

As audiências parlamentares, que já duram dois meses, buscam esclarecer em profundidade o escândalo de corrupção que minou a imagem da presidente Park Geun-Hye e que levou às ruas milhões de pessoas que pedem que ela deixe o cargo.

Park foi destituída nesta sexta-feira pelo Parlamento, a primeira vez na história política do país em que uma presidente não cumpre seu mandato. Após a votação, pediu perdão ao país "por este caos nacional que foi criado por minha negligência".

Park é acusada de ter se deixado influenciar por sua amiga e confidente, Choi Soo-sil, que, por sua vez, utilizou supostamente seus vínculos com a presidente para se enriquecer.

Chamada de "Rasputina" pela imprensa, Choi Soon-sil foi detida em novembro e está esperando para ser julgada por coação e abuso de poder.

Entre as frases famosas, ficou gravada na história a reação revoltada de um parlamentar quando o chefe de gabinete de Park, Kim Ki-Choon, negou reiteradamente que conhecesse a existência de Choi Soo-sil.

"Não vai ser fácil para você ir para o céu quando morrer. Tem tanto do que se arrepender", gritou exaltado o parlamentar a Kim.

- Estilista com passado obscuro -Enquanto a maioria dos interrogados, grandes executivos e políticos de alto escalão, tentaram manter a discrição, o testemunho de Koh Young-Tae, um estilista com um passado obscuro, se destacou por seu floreado discurso.

Koh Young-Tae contou como Choi tratava o ex-vice-ministro de Esportes, Kim Chong, como se fosse seu assistente pessoal, e como as roupas e os acessórios que entregava a ele terminavam no armário da presidente.

Segundo a imprensa, o estilista de 40 anos, que obteve a medalha de ouro nos jogos asiáticos representando seu país em esgrima, atuava às vezes como "gigolô" quando conheceu Choi.

Koh nega que tivesse um relacionamento com Choi, 20 anos mais velha, mas admite que eram próximos e que ela o visitava com frequência, até que brigaram pelo tratamento que ele deu ao cachorro de sua filha.

"Choi me pediu em 2014 que cuidasse do cachorro de sua filha. Ela veio a minha casa e viu que eu havia deixado o cachorro sozinho para ir jogar golfe", contou o estilista.

"Ela se irritou porque deixei o cachorro sozinho em casa e tivemos uma grande discussão", indicou Koh, especificando que desde então se distanciaram.

Esta discussão agora é considerada uma das chaves que facilitou a descoberta do escândalo, já que a animosidade de Koh o levou a dar muitos detalhes à imprensa sobre a influência de Choi sobre Park.

Os internautas o saudaram como um herói e um dos parlamentares o felicitou como o homem que "abriu a caixa de Pandora".

"Sem importar qual foi a sua motivação, esta audiência não teria ocorrido sem você", disse um dos parlamentares a Koh.

- Fachada -A testemunha de mais alto escalão até agora foi Lee Jae-Yong, que aparece como o herdeiro do império Samsung.

Seu testemunho sobre as doações feitas pelo grupo a duas fundações de origem duvidosa, controladas por Choi, era esperado com muita expectativa.

Mas no momento da audiência muitos espectadores ficaram fascinados por seus lábios, mais que por suas palavras.

Enquanto era bombardeado por perguntas, Lee, visivelmente incomodado, aplicava, meio às escondidas, hidratante labial.

As lojas locais não perderam tempo e começaram a promover o produto, um cosmético americano, rebatizado como "O hidratante Lee Jae-Yong".

Mas, apesar das frivolidades, o público não perdeu o foco.

Os membros de um fórum de discussão muito popular na internet tiveram um papel essencial no momento de refutar o testemunho do chefe de gabinete de Park, Kim, que negava ter conhecido Choi.

Um dos participantes do chat de internet desenterrou uma gravação da televisão de 2007 que mostrava o funcionário junto a Park.

O funcionário precisou retificar seu testemunho e atribuiu o esquecimento "à idade".

"Pude fazer com que Kim Ki-Choon confessasse graças aos nossos cidadãos", disse o legislador Park Young-Sun, que agradeceu encarecidamente a vigilância dos "detetives cibernéticos".

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