Chefe do FMI na defensiva em julgamento por negligência

Paris, 13 dez 2016 (AFP) - A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, passa nesta terça-feira por um interrogatório implacável, no segundo dia de seu julgamento por suposta negligência que originou um importante desvio de dinheiro público em sua gestão cmo ministra da Economia na França.

A presidente do tribunal, Martine Ract Madoux, interrogou Lagarde sobre o total de 45 milhões de euros (48 milhões de dólares) concedidos em 2008 ao empresário Bernard Tapie por dano moral em uma arbitragem autorizada por Lagarde quando estava à frente do ministério Economia francês.

"O total por danos morais pela morte de uma criança é de 30.000 a 50.000 euros. Mas essa indenização (de Tapie) é algo colossal!", declarou, indignada, Martine Ract Madoux.

"Não correspondia à senhora consultar seus serviços para indagar as razões sobre esta indenização de 45 milhões?", questionou ainda.

"O que teria mudado em nível jurídico", perguntou Lagarde, na defensiva.

Ex-ministra da Economia da França (2007-2011) sempre afirmou ter "atuado de boa fé".

Se for considerada culpada, ela pode ser condenada a até um ano de prisão e a pagar multa de 15.000 euros (15.900 dólares).

Qualquer que seja a sentença, este caso pode arranhar a imagem desta advogada especializada em negócios que, após passar pelo ministério da Economia, tornou-se uma das mulheres do mundo.

Reconduzida este ano à frente do FMI, Lagarde disse que se licenciaria da instituição durante o julgamento.

A diretora-gerente do FMI é julgada por uma jurisdição excepcional, a Corte de Justiça da República (CJR), criada com o propósito de julgar os ministros e ex-ministros por delitos cometidos no exercícios de suas funções.

Desde que foi criada, em 1993, a CJR condenou três membros do governo. No início do mês, a Justiça francesa condenou o ex-ministro da Fazenda do presidente socialista François Hollande, Jérôme Cahuzac, por fraude fiscal e lavagem de dinheiro.

Lagarde é acusada de "negligência" na gestão de um caso que envolvendo Tapie, que achava ter sido prejudicado pelo banco público Crédit Lyonnais durante a venda da marca esportiva Adidas em 1994.

Agora com 73 anos, Tapie foi dono da empresa de artigos esportivos entre 1990 e 1993, mas perdeu o controle da mesma quando se declarou em falência.

Então, ele vendeu a empresa ao banco estatal Crédit Lyonnais por 315,5 milhões de euros em fevereiro de 1993. O banco voltou a vendê-la no ano seguinte por 701 milhões de euros, o que levou Tapie a afirmar que tinha sofrido um calote.

Para resolver a disputa judicial iniciada por Tapie contra o banco, Lagarde, que havia sido nomeada ministra da Economia em 2007, durante a presidência de Nicolas Sarkozy, optou por recorrer a uma arbitragem privada, contrariando o critério de um órgão consultivo.

Em 2008, os três juízes arbitrais concederam a Tapie uma indenização de 404 milhões de euros, procedentes de fundos públicos.

Mas a justiça civil anulou a sentença arbitral no início de 2015, por considerar que ocorreu uma fraude. Tapie foi condenado a devolver os 404 milhões de euros.

A justiça francesa acusa Lagarde por "negligência e precipitação" no caso, que "privou o Estado de uma oportunidade de evitar o desvio dos fundos".

Em sua alegação, ela afirma que o recurso da arbitragem foi preparado antes de sua entrada no governo e que não tinha relações pessoais com os personagens do caso.

De fato, Lagarde não atuou na escolha, muito polêmica, dos árbitros.

Seu julgamento se estenderá até 20 de dezembro.

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