Mercosul debate divergências com a Venezuela e acordos comerciais

Buenos Aires, 14 dez 2016 (AFP) - Uma reunião extraordinária de chanceleres do Mercosul debate nesta quarta-feira, em Buenos Aires, a delicada situação regional criada pela crise interna na Venezuela e a iniciativa de avançar em um acordo comercial com a União Europeia.

A anfitriã, a argentina Susana Malcorra, anunciou que Buenos Aires assumirá a presidência pró-tempore do grupo em 1º de janeiro. A Venezuela não pode cumprir essa função, que lhe pertencia durante o segundo semestre desse ano, por estar suspensa do bloco por não se adequar a parâmetros técnicos e políticos que devem ser seguidos.

A causa da medida contra Caracas tem cunho político e nasce da tensão com o governo venezuelano de Nicolás Maduro.

"Estamos a caminho da chancelaria argentina para a reunião de chanceleres do MERCOSUL! Grande povo argentino, eu os saúdo!", escreveu a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, no Twitter, que impôs assistência à reunião a qual não foi convocada.

Pouco depois, Rodríguez disse ter entrado "pela janela" na reunião do Mercosul.

"Esses presidentes (do bloco) insistem em que a Venezuela não deve participar. Bem, vamos entrar pela janela, porque viemos aqui para defender os direitos da Venezuela e defender e fazer valer os direitos do Mercosul", afirmou em uma breve coletiva de imprensa em frente ao Palácio San Martin, sede do ministério das Relações Exteriores da Argentina.

Momentos depois, espalhou-se no Twitter uma foto da chanceler dentro do salão de reuniões do palácio, acompanhada por um aliado, o chanceler boliviano David Choquehuanca.

A oposição a Maduro defende que o governo deve aceitar o início de um julgamento político, em um contexto de graves problemas econômicos que atingem a população, enquanto o governo chavista considera tais movimentos como uma "tentativa de golpe de Estado".

Mudanças no blocoO Mercosul deu uma virada ideológica de 180 graus com os presidentes conservadores Michel Temer no Brasil e Mauricio Macri na Argentina.

Já se passaram os tempos em que os acordos levavam em consideração as afinidades latino americanas entre o venezuelano Hugo Chávez, o brasileiro Lula da Silva, o argentino Néstor Kirchner e o uruguaio José Mujica.

Agora são outros tempos. Brasil e Argentina dizem estar esperando que a Venezuela cumpra "o mais rápido possível" os compromissos do Mercosul para reintegrar-se plenamente ao bloco.

Dando outro enfoque, o governo uruguaio de Tabaré Vázquez reafirmou na terça-feira (13) seu apoio à continuidade da Venezuela no Mercosul com voz e sem voto, após uma conversa na segunda-feira (12) com Nicolás Maduro.

A suspensão imposta a Caracas foi aplicada por não haver incorporado à sua legislação uma série de medidas comerciais e políticas, incluindo o respeito aos direitos humanos.

Neste contexto, a chanceler venezuelana afirmou que o afastamento do seu país era "uma conspiração. Eles alegam uma suposta violação da Venezuela, que não é verdade. Com boa fé a Venezuela incorporou 95% do acervo normativo do Mercosul às suas leis".

O sensível caso venezuelano domina as conversas dessa quarta-feira no aristocrático palácio San Martín, de estilo francês. Ali se encontrará Malcorra com seus parceiros do Brasil, José Serra; do Paraguai, Eladio Loizaga, e do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa.

Prioridade com a EuropaOficialmente se denomina XI Reunião Extraordinária do Conselho do Mercado Comum. Ela antecede outro encontro que será realizado na quinta-feira em Montevidéu.

A prioridade da presidência argentina do bloco será em avançar na negociação de um acordo de livre comércio com a União Europeia, sem incluir a Venezuela. Caracas "sempre foi alheia a essas negociações", declarou a chanceler.

A criação da união alfandegária do Mercosul no começo da década de 90 prouziu um impulso formidável às economias dos quatro países fundadores.

O comércio se multiplicou. A Argentina e o Brasil passaram a ser os maiores sócios com grandes negócios bilaterais. Porém as crises internas em ambas nações fizeram o grupo entrar na zona nublada em que se encontra.

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