Na retaguarda, um hospital abre suas portas aos iraquianos

Al Qayyarah, Iraque, 14 dez 2016 (AFP) - Até o momento, tratando-se de emergência médica, os habitantes de Al Qayyarah, no norte do Iraque, teriam que se deslocar no mínimo 100 quilômetros para poderem ser atendidos, após atravessar uma rodovia repleta de radicais islâmicos que controlam o local.

A cidade Al Qayyarah fazia parte do setor conquistado pelo grupo Estado Islâmico (EI) em 2014, assim como Mossul, refúgio dos extremistas localizado mais ao norte, antes que as forças pró-governo a recuperassem em agosto passado.

Mahmud, 35 anos, explica que um dos únicos meios para que os habitantes de Al Qayyarah pudessem ser atendidos era ir a Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, que ficava a duas horas dali por estrada. Outras possibilidades eram Tikrit ou Mossul, a mais de uma hora.

São distâncias que poderiam ter sido fatais para o seu filho, que permaneceu ferido por quase quatro dias.

Enquanto brincava com um amigo de aproximadamente dez anos, da mesma idade que ele, Mohammed encontrou um objeto desconhecido. Ao sacudi-lo, o artefato explodiu em suas mãos e queimou seu nariz.

Porém seu pai não teve que recorrer a um longo trajeto para que curassem o seu filho: conseguiu que o menino fosse atendido em um hospital que a ONG Médicos Sem fronteiras (MSF) abriu em Al Qayyarah.

Ali, os especialistas se encarregaram de atender Mohammed, que aos poucos está se recuperando.

Antes, "isso seria impossível", explica Mahmud à AFP, junto ao seu filho na cama do centro médico.

250 pacientes em uma semana"Alguns pacientes com doenças crônicas não frequentavam um hospital a dois anos e meio" pois, "em 250 quilômetros, não existia um serviço de emergências sequer", conta Claire Nicolet, que coordena o projeto do hospital da MSF em Al Qayyarah.

"Uns 250 pacientes já foram tratados" até agora, afirma Nicolet, vestindo um jaleco com as siglas da MSF nas costas. Atrás dela as famílias esperam diante de um pequeno escritório onde os pacientes são recebidos.

No centro trabalham centenas de pessoas, dentre elas mais de 80 são iraquianas.

Em uma sala de paredes brancas, duas enfermeiras limpam e desinfeccionam as feridas de Salem Shahban, de 16 anos, que sofreu um acidente de moto.

Um pouco mais distante, em meio a várias camas, um médico polonês tenta distrair, utilizando carrinhos de brinquedo, Abderrhaman Taha, 5 anos, enquanto examina uma sonda colocada na lateral direita do corpo do garoto.

Como em qualquer serviço de urgências, tem que se estar preparado durante as 24 horas do dia, os sete dias da semana, para acolher qualquer tipo de pacientes, como afirmou Zahra Kadhim, uma médica de urgências vinda de Bagdad.

"Há fraturas, acidentes de trânsito, queimaduras. Aqui realizamos todas as operações de cirurgia de urgência", afirma a elegante iraquiana, vestindo uma bata branca e usando o seu estetoscópio.

O Iraque orgulhou-se durante muito tempo por oferecer aos seus habitantes assistência médica gratuita, mas desde a caída de Saddam Hussein e a violência que cresceu depois, o estado dos hospitais se tornou alarmante, segundo organizações internacionais.

Um sistema de saúde falidoDevido as sanções internacionais dos anos 90 que debilitaram as infraestruturas, a violência destruiu hospitais e provocou a fuga de boas parte dos médicos.

Os que permaneceram "pensam seriamente em ir, como muitas pessoas que acabaram de formar-se ou próximo a isso, para o exterior", relatou recentemente à AFP um chefe médico do norte do país que pediu anonimato.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou: o Iraque contava apenas com seis médicos a cada 100.000 habitantes.

Desde 2014, "o sistema de saúde nas zonas controladas pelo EI foi fortemente afetado", adicionou a doutora Kadhim."O EI teve um impacto negativo em todos os aspectos da vida" dos iraquianos das zonas controladas por eles.

O grupo extremista islâmico foi expulso de Al Qayyarah e, já que os combates para a libertação da cidade foram concluídos, os moradores dessa região agrícola puderam voltar às suas residências.

Do outro lado da porta do hospital, a vida retomou o seu curso. O mercado voltou a abrir e os açougues voltaram a oferecer cordeiros que acabaram de ser cortados.

Sem dúvida, seguem avistando à distância as labaredas dos incêndios dos poços de petróleo que os radicais deixaram para trás.

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