Aleppo, uma vitória militar, diplomática e pessoal para Putin

Moscou, 15 dez 2016 (AFP) - A vitória do regime sírio em Aleppo após mais de quatro anos de batalhas sangrentas é também a da Rússia, de seu poderio militar e de um Vladimir Putin que assumiu o protagonismo deixado progressivamente por Barack Obama.

Quando, em 30 de setembro de 2015, o presidente russo ordenou o envio de seu exército para a Síria, as tropas de Bashar al-Assad estavam sendo derrotadas. Em quatorze meses, o apoio decisivo dos russos renovou as forças do presidente sírio e permitiu a retomada completa de Aleppo.

Veja como Moscou embaralhou e redistribuiu as cartas do conflito sírio:

- Virada de mesa - Os bombardeiros, caças e helicópteros que operam a partir da base aérea de Hmeimim, no noroeste da Síria, ilustraram, por meio de uma série de vídeos publicados pelo ministério da Defesa, a entrada súbita de Moscou no conflito.

Oficialmente, nenhuma unidade da aviação russa se aproximou mais de dez quilômetros de Aleppo desde 18 de outubro. Mas a linha de defesa dos rebeldes nos bairros da zona leste da cidade foram pulverizadas no mês anterior por seus bombardeios intensos.

"Sem a intervenção russa, nada teria acontecido em Aleppo", resume Alexei Malashenko, analista do Centro Carnegie de Moscou. "Todos os esforços foram concentrados em Aleppo".

Se o Kremlin não enviou oficialmente tropas terrestres na Síria, ele admite a presença de "assessores" militares. De acordo com especialistas, o seu papel tem sido fundamental para o avanço das forças pró-Assad em Aleppo.

O último dos vinte soldados russos mortos na Síria era um coronel, comandante de um regimento de tanques, atingido por tiros em Aleppo.

Em Moscou, a televisão estatal também exibiu vídeos de atiradores em ação, sem especificar se estavam em Aleppo ou em outros lugares.

Além de seu impacto decisivo nos combates contra os rebeldes, a presença dos aviões, navios de guerra ao longo da costa síria e baterias antiaéreas tiveram outra vantagem para o exército de Assad: impediu a possibilidade de uma intervenção dos ocidentais.

- Uma vitória, não um triunfo -Para o Kremlin, a queda dos rebeldes em Aleppo pode ser resumida em uma fórmula: é o culminar da primeira intervenção militar russa fora das suas fronteiras desde o desastre da experiência no Afeganistão (1979-1989).

Mas acima de tudo, Putin parece mais do que nunca como o mestre do jogo de um conflito regional com implicações globais, em meio às disputas entre iranianos e sauditas, muçulmanos xiitas e sunitas, em um contexto de crise migratória na Europa.

Sinal da marginalização dos americanos e europeus, ele discutiu diretamente com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, a evacuação dos últimos civis e rebeldes de Aleppo. E uma reunião agendada para 27 de dezembro em Moscou com os líderes turco e iraniano vai acontecer sem a presença do secretário de Estado americano.

"O principal objetivo da intervenção era forçar o Ocidente a falar com Putin" após o isolamento causado pela crise ucraniana, estima o especialista militar independente Alexander Golts.

"O problema é que voltamos ao ponto de partida depois de um círculo completo. A Rússia agora está isolada por causa de sua vitória na Síria", afirma.

No entanto, as operações militares não se desenrolaram perfeitamente como queria o ministério da Defesa. As desventuras do porta-aviões Almirante Kuznetsov, que perdeu duas aeronaves por problemas técnicos, mostraram que o herdeiro do Exército Vermelho ainda tem algum caminho a percorrer.

E depois?E no momento onde Damasco e seu protetor se preparam para comemorar o fim iminente dos rebeldes em Aleppo, uma péssima notícia chega da cidade histórica de Palmira, cujo controle foi retomado pelos extremistas do Estado Islâmico (EI) oito meses após sua reconquista pelas tropas sírias.

O destino de Palmira - embora a cidade não possa ser comparada com Aleppo em tamanho, população e localização geográfica - ilustra as capacidades limitadas do exército sírio e o desafio à frente para o Kremlin.

"O controle de uma cidade grande como Aleppo exige um contingente militar significativo e um apoio russo permanente", ressalta Alexei Malashenko.

Além disso, a falta de negociações com os rebeldes complica qualquer esperança de uma paz negociada em Aleppo e em outros lugares na Síria.

E depois de mais de um ano para provar sua capacidade como líder de guerra, o mais difícil para Vladimir Putin será transformar sua imagem para a de um pacificador

Parte da resposta está na maneira como conduzirá as relações a partir de 20 de janeiro com o novo inquilino da Casa Branca, Donald Trump.

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